Lampião, o Capitão do Cangaço

Mais Cordéis

Lampião, o Capitão do Cangaço

Gonçalo Ferreira da Silva

Só a alma luminosa
do homem missionário
ouve a voz interior,
e tendo o dom necessário
faz poesia da seiva
de um caule imaginário.

Poeta não ouve vozes
só com humanos ouvidos,
ausculta a alma das coisas
com diferentes sentidos
para os que não são poetas
ainda desconhecidos.

Este poema que fala
de cangaço e de sertão
é, apenas, à cultura
uma contribuição,
um documentário vivo
da vida do Lampião.

Por ser uma obra feita
à luz da verdade viva,
mostra a face nobre, humana
e até caritativa
de Lampião, se tornando
a menos repetitiva.

Qual o homem mais famoso
da nossa grande nação?
Vargas não nos é estranho
porém sem comparação
internacionalmente
é sem dúvida o Lampião.

À feição de pedestal
tinha o serrote em seu pico
longevo angico, havia meses
não via de chuva um tico
e a cauã cantava triste
no último galho do angico.

José Ferreira casara
ainda com pouca idade
com a esbelta Maria
Vieira da Soledade
num clima de alegria,
de paz e tranqüilidade.

O século passado estava
dando sinais de cansaço,
José e Maria presos
por matrimonial laço
em breve seriam pais
do grande rei do cangaço.

No dia quatro de junho
de noventa e oito, a pino
estava o Sol, e Maria
dava à luz um menino
que receberia o nome
singular de Virgulino.

Em Floresta do Navio
nasceu e foi registrado,
no solo pernambucano
e ali foi batizado
bem distante de Recife
a capital do Estado.

O velho cônego e vigário
Joaquim Antonio Siqueira
batizou solenemente
o Virgulino Ferreira
filho de José Ferreira
e de Maria Vieira.

Depois daquela bendita
e cristã solenidade
os padrinhos Pedro Lopes
e Maria Soledade
desejaram ao afilhado
fortuna e felicidade.

Os seus bisavós paternos
segundo contam alguns
velhos historiadores
foram roceiros comuns
naturais do Ceará
dos lados de Inhamuns.

Venâncio Barbosa afirma
num pequeno trecho em prosa
que seus ancestrais vieram
da família dos Feitosa
sua bisavó paterna
era Maria Jacosa.

Dos avós paternos, ele
tem idéias menos vagas,
moravam em “Situação”
nas mesmas agrestes plagas
E eram Antonio Ferreira
e dona Maria das Chagas.

Os Montes e os Feitosa
viviam em pé de briga
por problemas de fronteira
numa rixa tão antiga
que eternizaram aquela
bruta e secular intriga.

José Ferreira da Silva
e Maria Soledade
pacatos e estimados
em sua localidade
não eram ricos mas tinham
pequena propriedade.

Quando José se tornou
compadre de Saturnino
já quatro filhos contava
pois além de Virgulino
já tinha também Antonio,
Ezequiel e Livino.

A terra de Saturnino
era na mesma comarca
fronteiriça à de José
cujas reses tinham a marca,
as iniciais do velho
e honrado patriarca.

Tinha o velho Saturnino
um filho muito estimado
José, que tomava conta
da criação, do cercado,
dos rebanhos e até mesmo
da compra e venda de gado.

Até que um dia chuvoso
José achou pendurado
no pescoço de uma rês
por Virgulino amassado
chocalho de Saturnino
quebrado, inutilizado.

Daí pra frente as famílias
tão fraternalmente unidas
viram de tal amizade
as bases estremecidas
arranhões que se tornaram
as mais profundas feridas.

José Saturnino teve
a reação fulminante
pois amassou os chocalhos
do insignificante
gado dos Ferreira, dando
uma resposta arrogante.

José Ferreira da Silva
foi ao compadre avisar
que longo plano de paz
era preciso formar
para que uma desgraça
possível fosse evitar.

Saturnino grave e sério
disse: – Compadre, vocês
amassaram um chocalho
no pescoço de uma rês
ninguém teve a consciência
de ser comigo cortês.

E ao compadre José
foi o chocalho exibindo
rangendo os dentes de ódio,
sinistramente sorrindo
dando uma prova eloqüente
de que não estava mentindo.

José Ferreira não tendo
argumento convincente
girou sobre os calcanhares
retornando prontamente
à sua casa a fim de
pensar mais maduramente.

Reunindo os filhos fez
demorada exposição,
analisando com calma
a dura situação
chamou Cornélio Soares
para uma mediação.

Cornélio então convocou
à casa de Saturnino
o velho José Ferreira
que chegou sem Virgulino
dizendo: – O que combinarem
fiquem certos que eu combino.

Cornélio Soares, homem
mediador perspicaz
arrancou de Saturnino
uma promessa veraz
de que por ele haveria
uma duradoura paz.

No entanto não passou
de mero paliativo
porque Virgulino tinha
um gênio tão explosivo
que não aplacou as chamas
do seu fogo vingativo.

José Saturnino estava
trabalhando noite e dia,
com a filha de Nogueira
brevemente casaria
para tal finalidade
ele a casa construía.

O terreno de Nogueira
ficava um pouco afastado,
José construía a casa
com seu futuro cunhado
quando foi por Virgulino
visitado e avisado:

– Amanhã virei aqui
não para lhe visitar,
amigo José chocalho
e pode se preparar
polir as armas e vir
disposto para brigar.

Aquelas palavras ditas
por Virgulino Ferreira
lembraram até fanfarrões
bebendo em final de feira
porém continham a ira
de uma mão justiceira.

Foi esta a primeira luta
de Virgulino Ferreira
Já à feição de guerrilha
improvisada trincheira
respondendo ao fogo intenso
de Saturnino e Nogueira.

Nesta primeira batalha
o resultado obtido
é que Livino saiu
capenga e muito ferido
e o ódio entre as famílias
muito mais recrudescido.

Nova proposta de paz
por Cornélio apresentada
se não foi pelas famílias
prontamente rejeitada
teve vida muito curta
precocemente olvidada.

José Ferreira da Silva
na paz não tendo mais fé
reuniu todos os filhos,
eles, Maria e José
mudaram-se logo para
as terras de Nazaré.

Tal como as outras medidas
foram ineficientes
esta foi nula porque
os Saturnino Valentes
já contavam com os Nogueira
e mais fortes aderentes.

José Saturnino disse:
– Amanhã bem cedo eu vou
à Nazaré porque um
rapaz de lá me comprou
um cavalo, no entanto
ainda não me pagou.

Diz a razão que o confronto
seria mais que iminente;
ir à Nazaré seria
insultar publicamente
os Ferreira, em cujas veias
circulava um sangue quente.

Em verdade nesse tempo
o valente Virgulino
já saqueava comércio,
provocava desatino
incendiara a fazenda
do sogro de Saturnino.

José Saturnino e
Nogueira foram avisados
do perigo que corriam,
no entanto, bem armados
todos os conselhos foram
por eles ignorados.

Na hora em que Virgulino
e seus irmãos deram fé
dos Saturnino na feira
foram armados e a pé
expulsaram Saturnino
das terras de Nazaré.

Sob intenso tiroteio
ensurdecedor, cerrado
Saturnino caiu fora
cabisbaixo, envergonhado
disse ao velho em casa que
tinha sido tocaiado.

Reuniram voluntários
com um furor assassino
grandes apreciadores
da família Saturnino
para acabar de uma vez
a raça de Virgulino.

A sanha de quem seria
o capitão do cangaço
não admitia derrota,
não aceitava fracasso
na zona de eficácia
do seu poderoso braço.

Teve a família Ferreira
vitória tão expressiva,
tão esmagadora e tão
convincente e decisiva,
a quem a testemunhou
pareceu definitiva.

Mas o ódio não se apaga
no selvagem coração,
confrontos entre as famílias
nos dão a comprovação
de que a paz não seria
mais possível no sertão.

O velho José Ferreira
tristonho e desiludido
porque por causa dos filhos
vivia assim perseguido,
o sossego não seria
jamais restabelecido.

Por arte do capiroto
que o fogo do ódio atiça
um homem decente, honrado,
sem ambição ou cobiça
saber que seu próprio filho
é corrido da justiça.

Porém não tinha mais jeito
porque a vereda errada
que seus filhos escolheram
teria que ser trilhada
armando cilada torpe,
sofrendo torpe emboscada.

Atormentado, José
fez uma desesperada
mudança pra Mata Grande
em Alagoas, e dada
a distância poderia
ter a paz tão desejada.

Livino retomaria
sua vida de vaqueiro,
e Virgulino, além de
artesão, sanfoneiro
esqueceria as encrencas
levando um viver ordeiro.

Mas inesperada e grande
foi sua decepção,
ali morreu fulminada
de ataque do coração
Maria da Soledade
deixando desolação.

Desolado com a perda
de sua esposa querida
José Ferreira passou
o resto de sua vida
sem paz, com sua família
por volantes perseguida.

Como vaticinou o
andarilho conselheiro
de Canudos, que o nordeste
e mesmo o Brasil inteiro
em breve conheceria
o seu maior bandoleiro.

José ouviu Virgulino
lhe dizer, algo ofegante
que em seu encalço andava
a furiosa volante
de Alagoas, disposta
a ataque fulminante.

José aparentemente
ignorou o aviso
mas saiu em passos lentos
acabrunhado, indeciso
lamentando em seus rapazes
tanta falta de juízo.

Ensurdecedor tropel
por tiroteio mesclado
ouviu-se em torno da casa
com o triste resultado:
José numa grande poça
de sangue quente deitado.

Naquele sombrio dia
de tanta desolação,
de tanta revolta e ódio
nascia para o sertão
o nosso famigerado,
destemido Lampião.

Juntou-se ao grupo voraz
de Sebastião Pereira
seu mais feroz precursor
e assim os irmãos Ferreira
formaram a endiabrada
e mais cruel cabroeira.

O ódio, a vingança, a fúria
a vileza a tirania
do bandoleira iracundo
ninguém mais controlaria
incendiaria fazendas,
o pavor espalharia.

Lampião era a um tempo
venenosa caninana
e cordeirinho domado
capaz de ação humana
mas dentro de tais ações
a fúria da fera insana.

Fazia forró com moças
e rapazes reunidos
exigindo que os pares
dançassem todos despidos
enquanto ele e seus cabras
achavam graça, entretidos.

Visto aquele espetáculo
não parecia tão feio
mas o respeito exigido
somava-se ao receio
de que o forró findasse
num horrível tiroteio.

Porque se alguém faltasse
com um tico de respeito
Lampião autorizava
que dessem fim no sujeito
para que ninguém ousasse
repetir seu triste feito.

É claro que um par dançando
completamente despido
para o respeito integral
ser preservado e mantido
só com mortal ameaça
das armas de um bandido.

Com Sebastião Pereira
e Luís Padre, o irmão
reconduzidos à paz
por padre Cícero Romão
o grupo ficou entregue
às ordens de Lampião.

Em livros de outros autores
exaustivamente lidos
contam porque Virgulino
com os maiores bandidos
tiveram os nomes mudados
para alcunhas, apelidos.

Mais de duzentos combates
Lampião empreendeu
peito a peito, em campo aberto
e no dia que morreu
foi em covarde emboscada
que ele nem percebeu.

Quando percebeu foi tarde
para esboçar reação
pois a volante chegou
com a recomendação
de não cometer enganos,
assassinar Lampião.

Lampião foi um valente
como o foi também São Jorge
mas como o Santo, não tinha
consigo nenhum caborje
Lampião também não tinha
demo nenhum no alforje.

Criou o homem o chicote
infernalmente inclemente
para corrigir o erro
do sujeito intransigente,
Lampião foi um chicote
de Deus em forma de gente.

Nunca se viu englobados
num só vivente mortal
tanta sede de grandeza,
nunca sanha tão brutal,
o sentimento selvagem
bruto do bem e do mal.

Lampião seria capaz
de amar perdidamente
aos seus queridos irmãos;
de odiar cegamente
a quem o traísse, ainda
que fosse só com a mente.

No limiar deste século
houve o recrudescimento
do cangaço no nordeste
com o aparecimento
de Lampião, entre todos
talvez o mais violento.

Quando dizemos talvez
temos medo de engano
porque o homem do campo,
o pesquisador insano
mostraram de Lampião
seu lado bom e humano.

Só por Lampião ter sido
muito voluntarioso,
por ter tido, já adulto
a fama de corajoso
não eram razões concretas
para se tornar criminoso.

Para presente edição
foram relacionadas
obras por meticulosa
peneira crítica passadas
e delas só as verdades
foram selecionadas.

Defeitos nas várias obras
que pesquisamos não pomos
porque somos imperfeitos
e principalmente fomos
com as faltas inerentes
ao ser humano que somos.

Liderando muitas vezes
mais de cem homens armados
ao chefe servis, ordeiros,
por volantes odiados,
por fazendeiros temidos
por humildes respeitados.

Também protegidos por
sacerdotes importantes
evitando o choque com
famigeradas volantes
provocando um clima nunca
experimentado antes.

Envolvendo do nordeste
os mais renomados vultos,
homens de conduta dúbia
e supostamente cultos,
ora acoitando bandidos,
às vezes trocando insultos.

À criança indiferente
às coisas más desta vida
dizia a mãe: – Nossa vila
hoje será invadida.
Assim vivia a criança
num clima tenso envolvida.

Na igreja o padre nada
espiritualizado
vaticina o fim do mundo
num sermão tão demorado
que por si já representa
um desconto de pecado.

Mas na vida criminosa
de Virgulino não há
registro de uma só luta
travada no Ceará
pois seu protetor nasceu,
viveu e faleceu lá.

É comprovado e notório
que o grande capitão
guardava muito respeito
ao padre Cícero Romão
tido no nordeste como
padrinho de Lampião.

Igreja, seca e cangaço
geram inquietação
provocando em nossa alma
uma estranha sensação
desconhecida pra quem
nunca viveu no sertão.

Mulheres e cangaceiros
fizeram longa união,
portanto Maria Bonita
na vida do Lampião,
na história do cangaço
não constitui exceção.

Corisco teve Dada
mulher de amor vibrante,
Jararaca teve esposa,
Dois-de-Ouro teve amante,
Cruz Vermelha, companheira,
Roque e assim por diante.

Sendo por Maria Bonita
prontamente apelidada,
por Rainha do Cangaço
também cognominada
era por todos querida
e com temor respeitada.

Os nomes dos cangaceiros,
a completa relação
encontra-se no poema
escrito por nossa mão
intitulado: Corisco –
Sucessor de Lampião.

Só o nome Lampião
era por todos temido
pois fez mulher confessar
a falsidade ao marido
bastava que anunciassem
a presença do bandido

Os coronéis mais valentes,
os políticos mais ousados,
o juiz mais arrogante,
os mais cruéis delegados
na frente de Lampião
ficavam paralisados.

Se mencionar pudesse
aos leitores exigentes,
mais de duzentos combates
em lugares diferentes
nem mesmo vinte volumes
seriam suficientes,

O rastro negro e sinistro
que o capitão deixou…
não se conta os poderosos
que sua senha esmagou,
de sua inclemente fúria,
nem o humilde escapou.

O amor que tinha aos manos
não lembrava um assassino
e viu cair um a um
Antônio, depois Livino
e mais tarde Ezequiel
alcunhado Ponto Fino.

Quando Ezequiel saiu
duma batalha infernal,
tendo nela recebido
um ferimento mortal
Lampião, frio e sinistro
lhe deu o tiro fatal.

E disse num tom mesclado
de ódio, tristeza e dor:
– No dia que eu não tiver
um remédio salvador
façam o mesmo comigo
que me farão um favor.

Quando Antonio faleceu
Lampião sentiu bastante
deixou crescer o cabelo,
se tornou mais arrogante
e sua imagem sinistra
muito mais terrificante.

Quando o grupo do bandido
invadia um povoado
se dessem sem relutância
o tanto solicitado
não havia tiroteio
nem qualquer confronto armado.

O capitão vaidoso
de quando em quando pedia
jornal que falasse dele
por todo lugar que ia
sobretudo os que tivessem
a sua fotografia.

Da maneira coletiva
tratava bem os sequazes
umas vezes “os meninos”
outras vezes “meus rapazes”
dirigindo sempre a eles
as mais calorosas frases.

A prudência aconselhava
ao Capitão infernal
para nunca invadir
cidades do litoral
pra não botar em perigo
ele e o seu pessoal.

No ataque a Mossoró
em que saíra frustrado
disse que dali pra frente
só estava interessado
no sertão quente, e, às vezes
até mesmo esturricado.

Toda vez que seqüestrava
o filho dum fazendeiro
pedia pelo resgate
grande soma de dinheiro
do contrário, a sangue frio,
matava o prisioneiro.

Certa vez em Simão Dias
um distante povoado
foi por um agricultor
bondosamente avisado
que por cem cabras, estava
o povoado guardado.

Lampião disse: – Com cem
cabras meu grupo não pode –
Mas corisco gracejou,
num divertido pagode:
– Para cem cabras, compadre
basta simplesmente um bode.

Mas Lampião possuía
o modo de proceder:
– Sem certeza de vitória
não devemos combater,
depois da derrota é tarde
até para se arrepender.

Lampião só tinha um olho
mas não cansava em lembrar
que tinha de fechar um
ao ser preciso atirar
portanto não precisava
o luxo de ter um par.

Meio dia em ponto ele
reunia o pessoal,
orava gesticulando
para com o ritual
mostrar aos cabras que tinha
algo sobrenatural.

Quando o Sol agonizava
para os lados do poente
Lampião mais uma vez
se curvava reverente
às coisas da natureza
respeitoso, obediente.

Lampião e seus capangas
no combate violento
uivava como cachorro,
rinchava como jumento
provocando nos soldados
sombrio estremecimento.

Ele embora acalentasse
no peito grande saudade
dos pais, quando padre Cícero
se foi pra eternidade
foi que Lampião sentiu
a verdadeira orfandade.

Não viajava aos domingos,
parava pra descansar,
no meio da mata agreste
improvisava um altar
em torno do qual mandava
o grupo contrito orar.

Lampião dormia pouco
ele e o seu pessoal,
a não ser que o instinto,
o seu amigo leal
segredasse ao seu ouvido
um aviso especial.

Emílio Ferreira um
dos padres mais importantes
aconselhou Labareda
a capar os semelhantes
porém deixá-los com vida
por mais que fossem arrogantes.

Labareda até gostou
desse conselho sadio
porque não gostava mesmo
de matar a sangue frio
tal como viu um soldado
fazer com seu próprio tio.

Como viu Sabino um dia
tão mortalmente ferido
que pediu para ser morto
e Mergulhão, comovido,
pegou prontamente a arma
e atendeu seu pedido.

Com moedas de tostões,
de dois tostões e cruzados
Lampião fazia o bem
a muitos necessitados
principalmente aos mendigos,
aos cegos e aos aleijados.

Um dia a tarde caia
e o santo do Juazeiro
viu da casa onde morava,
do extremo do terreiro
seu mais ilustre afilhado,
o mais devoto romeiro.

Era Lampião que vinha
liderando um grupo armado
dos lados de Pernambuco
pelo padre convidado
para dar combate aos Prestes
cordialmente chamado.

Andava a coluna Prestes
pregando pânico geral
e possivelmente como
finalidade central
desestabilização
do governo federal.

Foi para conter tal fúria
que Lampião foi chamado,
na casa do repentista
João Mendes foi instalado
num sobrado onde ficou
com o seu grupo hospedado.

No confortável sobrado
do ilustre repentista
recebia autoridades,
dava esmola e entrevista
contando suas mais terríveis
façanhas a um jornalista.

Internacionalmente,
sobretudo no sertão
é sabido que a patente
honrosa de capitão
Virgulino recebeu
do padre Cícero Romão.

Conduzia Lampião
suplícios martirizantes,
ferros de marcar novilhos
para ferrar delatantes
que fossem denunciar
sua presença às volantes.

Quarenta anos de idade
dos quais vinte ou mais de lida
no cangaço impiedoso
e enquanto ele com vida
foi a férrea disciplina
dentro do grupo mantida.

Nessas alturas o audaz
bandoleiro do cangaço
mostrava nas faces rudes
indisfarçável cansaço
e cairia brevemente
sem entregar-se ao fracasso.

Ele que amou febrilmente
a uma mulher casada
praticando amor selvagem
no pé das moitas deitada
companheira tão valente
quanto fiel e ousada.

O cangaceiro gostava
ouvir orgulhoso assim:
aqui caiu Zabelê,
aqui tombou Zepelim,
aqui morreu Juriti,
aqui Roque teve fim…

Mil novecentos e trinta
ocorreu a divisão
do grupo em diversos bandos
prestando, em reunião
contas ao supremo chefe
do cangaço: Lampião.

No ano de trinta e oito
ninguém sabia no sertão
notícia do bandoleiro,
parece até que o chão
para sempre havia tragado
o famoso Lampião.

Notícias à sua cerca
eram tão desencontradas,
algumas já como lendas
por muita gente contadas
que deixavam as volantes
muito desorientadas.

Uma noite finalmente
ele reapareceu
a dezessete de abril
de trinta e oito se deu
seu reaparecimento
que o nordeste estremeceu.

Três meses e onze dias
depois da alegre incursão
pelo Rio São Francisco
o bando do Lampião
parou em Angicos para
desfazer-se da exaustão.

Depois de tanta armadilha
pelas volantes armada,
de tanta vã tentativa
por Virgulino frustrada
Angicos seria o fim
da criminosa jornada.

A volante de Bezerra
pertencia ao batalhão
comandada por Lucena
de Albuquerque Maranhão
solenemente incumbida
de acabar Lampião.

E algo estranho dizia
ao experiente ouvido
do tenente João Bezerra
que o bandoleiro temido
estava com o seu bando
naquela mata escondido.

Margeando o velho Chico
a volante caminhava,
o tenente João Bezerra
silêncio recomendava,
os nervos ficavam tensos
à proporção que avançava.

Pouco depois João Bezerra
dividiu sua volante
e nomeando ali para
cada grupo um comandante
estreitando o cerco para
um ataque fulminante.

A vinte e oito de julho
era ainda madrugada
somente Maria Bonita
se encontrava acordada
recebendo à queima roupa
a fulminante rajada.

Num movimento instintivo
tantas vezes repetido
Lampião sacou as armas
mas mortalmente atingido
dobrou-se ficando sobre
as próprias armas caído.

Depois da luta em que foram
dizimadas tantas vidas
lhes deceparam as cabeças
e depois de recolhidas
em latas de querozene
foram todas conduzidas.

Nascido em noventa e oito
quarenta anos viveu,
a vinte e oito de julho
quando o dia amanheceu
de trinta e oito, em Angicos
Virgulino faleceu.