:: A literatura de cordel no Pará
por Geraldo Neto

Quando se fala em literatura de cordel a primeira referência que temos é o Nordeste. Logo lembramos os repentistas nordestinos cantando poemas com personagens e temas do Nordeste, como Lampião, Antônio Conselheiro, Antônio Silvino, Padre Cícero, a seca, o cangaço, a guerra de Canudos. Mas o que muitas pessoas desconhecem é que o cordel também se manifestou em outros lugares do Brasil, incorporando novos temas e olhares. Um desses lugares é o Pará, que teve na primeira metade do século XX uma das maiores editoras de folhetos do Brasil, a editora Guajarina.

A tradição do cordel chega ao Pará com a migração nordestina no período do auge da economia da borracha (1870 - 1910). Muitos nordestinos vinham para a Amazônia fugindo da seca e com a perspectiva de enriquecimento com a extração do látex, matéria-prima da borracha. A migração traz também tradições e valores culturais do Nordeste, como as histórias contadas em versos. Essa tradição oral se expande pela Amazônia, principalmente nos grandes núcleos de imigrantes nordestinos, que no Pará se fixavam principalmente no nordeste paraense, na chamada zona bragantina.

Em 1914 o pernambucano Francisco Lopes cria a editora Guajarina para a difusão da literatura de cordel. Os folhetos da Guajarina tiveram grande aceitação, visto que a tradição oral já estava enraizada, tanto a poesia já tradicional da Amazônia, quanto a poesia nordestina. Além de publicar folhetos de poetas famosos do Nordeste, como Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Firmino Teixeira do Amaral e Tadeu Serpa Martins, muitos dos quais sem a autorização de seus autores, a Guajarina publicava folhetos de poetas paraenses e de nordestinos radicados no Pará, como Zé Vicente, Ernesto Vera, Mangerona-Assu, Apolinário de Souza e Arinos de Belém.

Uma particularidade dos poetas paraenses é que, ao contrário dos nordestinos, eles utilizavam pseudônimos. Zé Vicente era o pseudônimo de Lindolfo Mesquita; Ernesto Vera, de Ernani Vieira; Mangerona-Assu, de Romeu Mariz; Arinos de Belém, de José Esteves. A razão disso é que esses poetas, diferentemente dos poetas do Nordeste, não viviam exclusivamente da produção dos folhetos de cordel. O caso mais significativo é o de Zé Vicente. Lindolfo Mesquita era um conhecido jornalista que trabalhou nos jornais Folha do Norte e O Estado do Pará. Durante o Estado Novo foi prefeito da cidade de Vigia e diretor do DEIP (Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda). Já Romeu Mariz, além de jornalista, era membro da Academia Paraense de Letras. Como o cordel era mais identificado com as classes populares, esses poetas não queriam que seus verdadeiros nomes fossem associados às classes mais baixas. Contudo, eles assimilaram o modelo da escrita com a linguagem popular em versos e produziram folhetos de muito sucesso.

Além dos temas nordestinos, que tinham grande aceitação, principalmente as histórias sobre Lampião, os folhetos da Guajarina traziam temas locais como o Círio de Nazaré, a interventoria de Magalhães Barata, a vida do seringueiro, e os crimes de grande repercussão. Também devemos acrescentar os folhetos com temas nacionais e internacionais, destacando os folhetos sobre a Revolução de 1930, o Estado Novo, e a Segunda Guerra Mundial. Os folhetos eram verdadeiros jornais populares, informando sobretudo a população das camadas mais baixas, que não tinham acesso aos jornais ou ao rádio.

A Guajarina se localizava em Belém, mas ela tinha uma extensa rede de revendedores: no interior do Pará, em cidades como Santarém e Marabá; na região amazônica, em cidades como Manaus e Rio Branco; e até mesmo no Nordeste, principal centro irradiador da literatura de cordel, em cidades como São Luís, Fortaleza, Teresina, Natal, Juazeiro e Campina Grande. O fato dos folhetos da Guajarina circularem no Nordeste demonstra o sucesso que essa editora teve na primeira metade do século XX.

A editora Guajarina fechou em 1949. Desde então, o Pará não teve outra editora de folhetos de cordel com o mesmo destaque. Apesar disso, os poetas paraenses continuaram a produzir folhetos, muitos de maneira independente. Outros temas passaram a ser abordados como a Ditadura Militar, os conflitos agrários na Amazônia, a morte de Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, a construção da Transamazônica, a visita do Papa João Paulo II, a corrida do ouro em Serra Pelada, a inflação no governo Sarney, a eleição de Fernando Collor, a morte da missionária Dorothy Stang. Entre os poetas que produzem folhetos de forma independente hoje, temos Antônio Juraci Siqueira, Apolo de Caratateua, João de Castro, Manoel Ilson Feitosa, Paulo Melo, João Bahia.

Geraldo Magella de Menezes Neto. Graduando em História pela UFPA, bolsista do projeto de pesquisa Literatura de cordel e experiências culturais em Belém do Pará nas primeiras décadas do século XX, coordenado pela Prof. Dra. Franciane Gama Lacerda.

:: Leandro Gomes de Barros - Pioneiro do cordel e inspirador
d´O Auto da Compadecida.

por Arievaldo Viana

Quatro de março de 2008... Essa data marcará os 90 anos de morte do maior expoente da Literatura de Cordel no Brasil, Leandro Gomes de Barros. O poeta nasceu na fazenda Melancia, em Pombal-PB (hoje município de Paulista-PB), no dia 19 de novembro de 1865 e faleceu em Recife-PE, em março de 1918, segundo alguns pesquisadores, vitimado pela Influenza espanhola, segundo outros por haver sido preso injustamente, no exercício de sua profissão, ao mostrar-se simpatizante das classes oprimidas num folheto intitulado "O Punhal e a Palmatória", sobre o qual iremos nos deter mais adiante. Ele foi o fundador da poesia popular no Brasil, segundo o testemunho do poeta Chagas Batista, e também autor de dois folhetos, dos três que serviram de inspiração para Ariano Suassuna compor a sua peça mais famosa: "O Auto da Compadecida". Os folhetos são O Dinheiro (que chama-se, na verdade, O testamento do cachorro - de 1909) e O Cavalo que Defecava Dinheiro, que na versão de Ariano, foi transmutado num simpático bichano. Chagas Batista é citado por Câmara Cascudo como uma de suas fontes de pesquisas. Ariano, por sua vez, jamais negou a influência de Leandro em sua obra.

De antemão alertamos que todos os dados contidos nesse artigo foram recolhidos em dezenas de fontes dignas de crédito (livros, jornais, revistas, sites, folhetos antigos, contra-capas de folhetos, entrevistas, dos quais mantemos cópias integrais). Porém, algumas vezes, tais informações são desencontradas, o que ensejou um árduo trabalho comparativo a fim de se estabelecer uma história verossímil, ou seja, mais próxima da realidade...

O compositor paraibano Bráulio Tavares, articulista do Jornal da Paraíba, lamentou, por ocasião dos 140 anos de nascimento do poeta, em 2005, que ainda não haja uma biografia à altura de seu talento, mas reconhece que falar da vida de uma pessoa que nasceu em meados do século XIX, e sobre a qual restam pouquíssimas informações além daquelas contidas em sua obra, "é a mesma coisa que catar confetes na rua um mês depois do carnaval". Eu que não sou discípulo de Momo, mas simpatizante ferrenho de Leandro desde a mais tenra idade, lanço-me ao desafio de recolher pequenos fragmentos de sua história, a fim de montar esse quebra-cabeça. Em 1976, com apenas nove anos de idade, estive na cidade cearense de Canindé, conhecida como o "maior santuário franciscano das Américas", onde há uma grande romaria dedicada à São Francisco das Chagas. Por lá apareciam vendedores de poesia popular, os famosos folheteiros, atraídos pelo aglomerado de gente. Comercializavam os versos de feira desde os tempos de Moisés Mathias de Moura, que começou a publicar seus folhetos na década de 1930. Naquela oportunidade, meu pai presenteou-me com os dois volumes do folheto "A Vida de Cancão de Fogo e seu Testamento", de Leandro Gomes de Barros.

A partir daquela data, Cancão e Leandro passaram a ser meus heróis (ou anti-heróis?) prediletos. Mais que quaisquer outros que eu viria a conhecer posteriormente, nacionais ou importados (João Grilo, Macunaíma, Malazartes, Zorro, Hobin Hood e Jerônimo - O herói do sertão), do cinema ou dos quadrinhos. Foi paixão à primeira vista, identificação total com o irreverente personagem e seu criador, cuja importância nunca foi devidamente reconhecida em nosso país. Apesar dos esforços de Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Sílvio Romero, Manuel Diegues Jr., Sebastião Nunes Batista e outros intelectuais, Leandro só viria a ter algum valor perante os seus compatriotas (não o povão, que sempre consumiu seus folhetos, mas os pseudo-intelectuais plenos de academicismo) depois que virou alvo da pesquisa de intelectuais franceses e norte-americanos, como Raymond Cantel e Mark J. Curran. E mais ainda depois que Carlos Drummond de Andrade o considerou superior a Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, que, curiosamente, nasceu e faleceu também nas mesmas datas que Leandro (1865 - 1918). Pode, aparentemente, haver um certo exagero da parte de Drummond, mas temos que considerar o fato de que Leandro foi muito mais popular, que suas obras tiveram milhares de edições e que foram consumidas até por analfabetos, que compravam seus folhetos e pediam para que terceiros, semi-alfabetizados, longe dos salões engalanados, lessem em voz alta. Tais leituras formavam verdadeiros saraus de poesia nas noites sertanejas, com dezenas de ouvintes embevecidos com a leitura alegre e cadenciada de: Cachorro dos Mortos, Juvenal e o Dragão, Donzela Teodora, Soldado Jogador, Sofrimentos de Alzira, Alonso e Marina e Meia-Noite no Cabaré.



Leandro ficou órfão de pai ainda criança e mudou-se com a mãe para a Vila do Teixeira-PB, onde morava o seu tio materno Padre Vicente Xavier de Farias, que ajudou a criá-lo. Esse dito Pe. Xavier de Farias, além de vigário da Vila do Teixeira, era também professor de Latim e Humanidades, o que no passado chamava-se padre-mestre, sendo, provavelmente, o responsável pela educação daquele garoto, que cedo revelou os seus pendores para a Literatura, embora não tenha permanecido muito tempo na escola, pois afirma-se que, devido aos maus tratos que o padre lhe infligia (levemos em conta também a própria irreverência do biografado) e algumas desavenças por causa da herança deixada por seu pai - o padre era o tutor da herança de sua família -, abandou a escola e fugiu de casa aos 11 anos, tendo passado muitas privações. Qualquer semelhança com a história de Cancão de Fogo e Alfredo, personagens criados pelo mestre de Pombal, talvez não seja mera coincidência...

"Esse homem que me cria
Me maltrata em tal altura
Que nem um preso no cárcere
Sofrerá tanta amargura
Não foi Deus, é impossível
Que me deu tanta amargura."

Cancão de Fogo, um amarelinho da mesma estirpe de Pedro Malazartes e João Grilo, é descrito por Leandro como "o quengo mais fino/dessa nossa geração". Familiares do poeta contam que o jovem Leandro era um menino "endiabrado", sempre disposto a aprontar travessuras, que ainda hoje estão retidas na oralidade de seus parentes. Não eram exatamente brincadeiras de mau-gosto, mas atitudes que demonstravam grande irreverência. No velório de um tio, trepou-se numa janela e ficou de atalaia, esperando a passagem de uma criada da casa, fingindo-se de onça. E não é que acabou pulando em cima da mesma, imitando o rosnado do feroz felino? Foi uma situação de grande hilaridade, exceto para sua tia, a viúva, que ficou muito magoada. Câmara Cascudo comparou esse seu folheto - A Vida de Cancão de Fogo e o seu Testamento-, em seu "Vaqueiros e Cantadores", a um livro outrora famoso, "Palavras Cínicas", do escritor português Albino Forjaz de Sampaio, uma das obras mais lidas no Brasil, no início do século passado... Realmente, a obra de Forjaz Sampaio é plena de irreverência, cheia de máximas que podem haver inspirado Leandro. Porém somos de opinião que Leandro inspirou-se em sua própria história para compor o irrequieto Cancão. Como seu criador, Cancão também perdeu o pai ainda criança:

"O pai de Cancão de Fogo
Foi um homem preparado
De muito bons sentimentos
E muito bem arranjado;
Mas a sorte nesse mundo
Dá e tira, como um dado.

(...)

Cancão de Fogo já tinha
Nove ou dez anos de idade
Quando o pai dele morreu...
Deixou-os em orfandade;
Cancão quando soube disse:
- Isso não é novidade!

- Mamãe está sem marido,
Por isso não vá chorar;
Eu também fiquei sem pai
Porém, sempre hei de passar.
Ela pode achar marido -
Pai é que eu não posso achar!"

Segundo informações da escritora Cristina da Nóbrega, professora de Teologia em Recife, bisneta de Daniel Gomes da Nóbrega, Leandro era irmão de seu bisavô e também de Adonias, Cândida e Raimunda. Graças aos seus esforços foi possível, pela primeira vez, fazer-se um esboço da árvore genealógica do poeta, mesmo que faltando algumas peças primordiais, como o nome de seu pai. Sabe-se que a mãe se chamava Adelaide e era irmã do já citado Padre Vicente Xavier de Farias, que ficou como tutor da família, após a morte do pai de Leandro. É público e notório que os dois não se entendiam, motivo pelo qual Leandro acabou mudando o próprio sobrenome, renegando o "da Nóbrega" (da família de seu tio) e adotando "de Barros", que talvez fosse o outro sobrenome de seu pai.

"Cancão era um apelido
Que os irmãos lhe puseram
Pelas travessuras dele
Esse apelido lhe deram,
Por ele nunca querer
O que os parentes quiseram.

(...)

Por isso Cancão um dia
Estava numa discussão,
Disse a um irmão da mãe dele:
- Homem algum tem distinção!
A vantagem do fiel
É a mesma do ladrão.

Já tenho quase dez anos,
Nunca ouvi dizer assim:
"Pedro escapou por ser bom,
Paulo morreu por ser ruim"...
Bom e mau, bonito e feio
Tudo tem o mesmo fim."

O certo é que, tendo deixado o município de Pombal antes de completar dez anos, ainda residiu até os 15 anos de idade no Teixeira, na Paraíba berço de Inácio da Catingueira, Romano da Mãe D'água, Agostinho Nunes da Costa, Hugolino do Sabugi e outros grandes cantadores do passado. Tendo se mudado, após esse período, para Vitória de Santo Antão-PE, o poeta teve que trabalhar para se manter.

"A mãe do Cancão de Fogo
Decidiu-se a trabalhar;
Cancão de Fogo não quis
A isso se sujeitar
Dizendo: - Não tenho forças
Para o serviço acabar...

Agora, para viagem,
Ou para qualquer mandado
Achava-se de prontidão
Não se mostrava enfadado;
Ninguém conseguia dele
Era trabalho pesado."

Em Jaboatão, Leandro casou-se com dona Venustiniana Eulália de Sousa (que tornou-se "de Barros"), com quem teve quatro filhos, segundo apurou a conceituada pesquisadora Ruth Brito Lemos Terra em sua obra "Memórias de Lutas: Literatura de Folhetos do Nordeste - 1893 - 1930". Conforme relatam seus contemporâneos, nunca teve outro ofício além de escrever, imprimir e revender os seus versos, coisa muito rara no Brasil...

Os filhos de Leandro eram Rachel Aleixo de Barros (que casou-se em 1917 com o escritor Pedro Batista, irmão do também poeta Francisco das Chagas Batista), Erodildes (Herodíades?) (Didi), Julieta e Esaú Eloy; este último seguiu a carreira militar, tendo participado da Revolução de 1924 e da Coluna Prestes. Durante as pesquisas realizadas para elaboração de sua obra, Ruth Terra conseguiu entrevistar Julieta Gomes de Barros, uma das filhas de Leandro. Um dos filhos, Esaú, assinou juntamente com mãe o documento de venda da obra de seu pai ao poeta João Martins de Athayde, em 1921. Sobre essa Herodíades, há um episódio interessante: Cristina da Nóbrega, baseada em relatos de seus ancestrais, conta que quando Leandro foi batizá-la, o padre quis saber o nome e poeta disse-lhe que seria Herodíades (o mesmo nome da mulher de Herodes, tetrarca da Galiléia, que mandou matar o profeta João Batista, o Precursor). O padre recusou-se terminantemente a batizá-la com esse nome e o irreverente Leandro saiu da igreja dando muxoxos, dizendo que teria outros filhos e que se chamariam Jesus Cristo II e Judas Iscariotes. Leandro fazia isso para chocar... Dizia-se ateu, mas ninguém conhecia a Bíblia tão bem quanto ele. Na verdade, ele criticava os vícios do clero, mas não se afastava da doutrina cristã.

Em 2005, publiquei um artigo no "site" da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores (CBJE) sobre os 140 anos de nascimento de Leandro. Cristina da Nóbrega, a bisneta de seu irmão Daniel, postou o seguinte comentário:

* Depoimento de Cristina Nóbrega
No site da Câmara Brasileira dos Jovens Escritores (CBJE)

"Leandro foi irmão de meu bisavô Daniel Gomes da Nóbrega. Portanto, Leandro era um Nóbrega. Mudou para Barros em decorrência de uma discussão com o seu tio, o Pe. Vicente Xavier de Farias. Quando os irmãos do Pe. Vicente morreram, ele ficou por tutor das duas famílias, uma estava falida, e a outra tinha dinheiro. O Pe. Vicente passou, então, os bens do irmão para o outro, deixando a família de Leandro (bem como o meu bisavô Daniel) na miséria. E quando Leandro foi tomar satisfações, ele mandou dizer que "no cabaço ainda cabia orelha". Leandro, com raiva, mudou o sobrenome de Nóbrega para Barros. (26/06/2007)".

Essa história do "cabaço" é a seguinte. O avô do padre Vicente foi morto covardemente por jagunços, num momento em que se encontrava sozinho em sua fazenda, pois seus filhos, genros e noras haviam ido a uma festa. A avó do padre incitou a família à vingança. Filhos e genros (e talvez netos) saíram armados, em perseguição ao grupo de cangaceiros, só retornando à fazenda depois que mataram os nove agressores e extirparam nove pares de orelhas, que foram salgados, enfileirados num cordão e postos numa cabaça como troféu. O padre não escaparia à sátira mordaz de Leandro, que o caricaturou no folheto "A confissão de Antônio Silvino", em que o padre aparece como um colecionador de orelhas de cangaceiros, conforme se vê nas estrofes seguintes:

"O padre disse: - Meu filho,
Talvez hoje eu lhe dê cabo -
Dentro da igreja sou padre,
Mas fora sou um diabo!
Você diz que não tem fim,
Porém, se partir pra mim,
Vem mole que só quiabo!

(...)

Antônio Silvino disse:
- Pois vamos ver, padre-mestre!
Custoso é ver sogra boa
E nova-seita que preste,
Bode por gosto lavar-se,
Jumento no mar criar-se,
Nascer baleia no agreste!

O padre disse: - Eu não acho
Nada no mundo custoso -
Custoso é você sair
Comigo vitorioso,
Eu, no tempo que brigava,
Todos os dias guardava
Orelhas de criminoso!"

Pois bem... Ao ameaçar o sobrinho dessa maneira, dizendo que "no cabaço ainda cabiam orelhas", Padre Vicente lembra muito o tio do CANCÃO DE FOGO, que mandou o mulato Zé Vaqueiro no seu encalço, com uma precatória para prendê-lo...

"O tio dele sabendo
O que tinha se passado
Foi à casa da mãe dele
Que ia desesperado
Dizendo que do Cancão
Inda seria vingado."



Em quase todos os livros onde se encontram dados biográficos de Leandro, consta a informação de que, entre os 13 e 15 anos, ele fugiu de casa, da mesma maneira que seu personagem Cancão de Fogo. Abandonou a família e depois de bolar "de déu em déu", acabou fixando-se primeiramente em Vitória de Santo de Antão, depois em Jaboatão (onde casou e iniciou a publicação de seus versos, por volta de 1893) e, finalmente, fixou-se em Recife, uma das maiores capitais do país, onde deu vazão a seu estro e também à sua boemia. O Cancão "largou-se de estrada afora/ sem direção, sem destino /... /Foi procurar uma casa / Que empregasse menino"

"Um dia disse consigo:
- Minha mãe tem precisão...
Talvez não tenha mais roupa
E até lhe falte pão;
Vou mandar-lhe esse dinheiro,
Ela me agradeça ou não!

Mandou-o pelo correio,
Mandou dizer onde estava,
O emprego que ele tinha
E a quantia que ganhava;
Então, mandou lhe dizer
Que todo mês lhe mandava.

Assim mesmo, pela velha,
Tudo tinha se arrumado.
Ela pensou que Cancão
Tivesse até melhorado;
Mas o tio, quando soube,
Ficou como um cão danado.

(...)

E era irmão da mãe dele
Essa fera inconsciente,
Só odiava a Cancão
Por ser ele inteligente
E os filhos* desse monstro
Brutos desgraçadamente".

Padre com filhos? Isso pode parecer estranho nos dias de hoje, mas no Nordeste do Século XIX era coisa muito comum. Vejamos o que diz, a respeito do padre Xavier de Farias, Frei Hugo Fragoso, em trabalho de resgate da origem das antigas famílias do Teixeira, intitulado "Dos Sucurus aos Teixeirenses":

A Segunda filha da lista dos filhos de Ubaldina Camila de S. José e Manuel Batista dos Santos foi Maria Batista Guedes (tia de Pedro Batista, genro de Leandro). Segundo informação de José Obrigo, casou-se ela com um primo seu, filho de Tosinha, uma das irmãs de Manuel Batista dos Santos. De acordo com informações de Antônio Batista, filho de Cosma Filismina, sua tia Maria se casou com Manuel José Firmino.

Antes deste casamento, Maria Batista Guedes tivera com o Pe. Vicente Xavier de Farias, uma filha que fora retirada da vila do Teixeira para o sitio de Riacho Verde, onde veio a morrer. Teve, depois, um segundo filho* (Dr. Antonio Xavier de Farias), que o Pe. Vicente preferiu que fosse criado no Teixeira mesmo, por ter mais condições que no sítio. Esta informação é da autoria de Palmira Nunes da Costa Rego.Em sua Recordação do Passado, Antônio Batista de Melo registra o falecimento de sua cunhada Maria, a 20 de dezembro de 1880, na vila do Teixeira (RP, s/p).

* Cristina da Nóbrega informou-me que esse Antônio Xavier de Farias era conhecido no Teixeira como "Tonho do Padre Vicente". Apesar de não ter sido reconhecido publicamente como filho legítimo, tinha o mesmo sobrenome do pai.

Voltemos ao José Vaqueiro, do poema de Cancão. É possível, que ao fugir de casa, os familiares de Leandro, instigados pelo tio, tenham mandado alguém procurá-lo no lugar em que se encontrava. A mãe querendo saber do seu paradeiro. O tio, talvez, querendo vingar-se de sua ousadia... Qualquer família de bom senso faria isso... Leandro, gozador contumaz, que se auto-denominava um dos maiores humoristas do Brasil, segundo Egídio Oliveira Lima, dramatizou a fuga de Cancão, inspirado, talvez, na sua própria trajetória:

Havia ali um mulato
Chamado José Vaqueiro
Um indivíduo ladrão,
Covarde e alcoviteiro
Jurava o que nunca viu
Por diminuto dinheiro.

Esse tendo feito um roubo,
O Cancão de Fogo viu,
Foi ao sub-delegado
E o roubo descobriu;
Por isso o cabra foi preso
E a sentença cumpriu.

O tio de Cancão de Fogo
Julgou ir muito acertado:
Mandou, por José Vaqueiro,
Vir o Cancão escoltado,
Dizendo, com seus botões:
- Ele chega desgraçado!

O resto fica por conta da imaginação de Leandro... José Vaqueiro, depois de embriagar-se, foi preso, graças a intervenção do Cancão de Fogo, tendo que suportar 60 dias de prisão, fora as surras diárias. Talvez, nada disso tenha acontecido em sua vida real. Mas Leandro, ao fugir de casa, usou desse artifício - a imaginação plena de graça que Deus lhe dera - para vingar-se dos que lhe tinham atormentado em sua infância/adolescência. O certo é que, na história de Cancão, José Vaqueiro se deu mal e Cancão, que não era besta, tratou de sair de onde estava, em busca de outro pouso:

"O Cancão disse consigo:
- Eu aqui, sou descoberto;
Pedir a conta e sair,
Este é o plano mais certo!
Eu não quero que a polícia
Me ache de corpo aberto...

(...)

Cancão antes de sair
Fez duas cartas primeiro:
Uma foi para a mãe dele
Mandando-lhe mais dinheiro,
Outra ao tio, dando lembranças,
Que mandava Zé Vaqueiro...

Dizia a carta do tio:
"O seu mordomo excelente
Eu apresentei-o aqui
Ao delegado, somente;
Foi para casa da Câmara,
Seguido por muita gente.

Está na casa do Governo
Lá tem honras de sultão!
Soldados ali na porta,
Sempre à disposição...
Se o senhor tivesse vindo,
Era mais satisfação."

Outros folhetos que certamente guardam informações auto-biográficas são: A Órfã, O Padre Jogador e todos que tratam da aguardente, uma das paixões do poeta. Estima-se que a vasta produção literária de Leandro, iniciada em 1889, no estado de Pernambuco, atinge cerca de 600 títulos, dos quais foram tiradas mais de 10 mil edições. Entre 1906 e 1913 foi proprietário de uma pequena gráfica - a Typografia Perseverança - destinada exclusivamente à impressão e distribuição de seus próprios folhetos, tendo vendido o seu prelo ao amigo Francisco das Chagas Batista, da Popular Editora, em função de suas muitas viagens e pouco interesse dos filhos (ainda pequenos) pelo ofício de tipógrafo. O poeta Joaquim Batista de Sena, em entrevista concedida a pesquisadores do Centro de Referência Cultural da Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, em 1978, dá preciosas informações sobre a maneira como Leandro comercializava seus folhetos. Na verdade, ele contesta a denominação "Literatura de Cordel", que se popularizou a partir da década anterior à entrevista. Sena diz que o poeta mais antigo ainda vivo naquela época (1978) era Manoel Tomás de Assis (Manoel Limão), que conhecera Leandro pessoalmente e chegou a vender folhetos juntamente com ele na feira de Goiana-PE. De acordo com o testemunho de Manoel Tomás, Leandro comercializava suas obras sobre uma lona, estendida no meio da feira, ao passo que Manoel Tomás conduzia seus folhetos num saco de pano que levava à tira-colo, tirando apenas pequenos punhados de folhetos para fazer a propaganda. João Melchíades, contemporâneo de Leandro, conduzia seus livretos em malas de couro, no lombo de animais e os expunha dessa maneira nas feiras. Nada de folheto pendurado em cordão ou cordel, termo que veio de Portugal e surgiu escrito pela primeira vez, em livros que datam do último quartel do século XIX.

Após a morte de Leandro, em 1918, seu genro Pedro Batista (irmão de Chagas Batista e esposo de Rachel Aleixo de Barros), continuou editando a obra do sogro em Guarabira-PB, fazendo algumas revisões de linguagem. Na 3ª edição completa de "O Cachorro dos Mortos", um dos maiores clássicos de Leandro, publicado em Guarabira-PB em 1919 (um ano após a sua morte), Pedro Batista colocou o seguinte aviso:

"Tendo falecido o poeta Leandro Gomes de Barros passou a me pertencer a propriedade material de toda a sua obra literária. Só a mim, pois, cabe o direito de reprodução dos folhetos do dito poeta, achando-me habilitado a agir dentro da lei contra quem cometer o crime de reprodução dos ditos folhetos."

Ainda na contracapa do dito folheto, Pedro Batista dá nome aos "bois" responsáveis pela "pirataria":

"Já achava-se este folheto em composição quando chegou ao meu conhecimento que em Belém do Pará, um indivíduo de nome Francisco Lopes e no Ceará um outro de nome Luiz da Costa Pinheiro, têm criminosamente feito imprimir e vender este e outros folhetos do poeta Leandro Gomes de Barros, sem a menor autorização de minha parte que sou o legítimo dono de toda a obra literária desse poeta. (...)"

Ora, bem pior fez João Martins de Athayde, que após adquirir por compra o espólio de Leandro, tentou usurpá-lhe a autoria suprimindo o seu nome da capa dos folhetos e alterando os acrósticos que Leandro utilizava no final dos poemas, a fim de confundir a identificação. Essa prática condenável verifica-se em dezenas de obras reeditadas por Athayde. Vejam só o que aconteceu com a última estrofe do folheto "A Força do Amor ou Alonso e Marina", onde o acróstico LEANDRO foi alterado para IEANJRO:

Folheto editado pelo autor:

Levemos isso em análise
Então ver-se aonde vai
A soberba é abatida
No abismo tudo cai,
Deus é grande e tem poder
Reduz ao pó qualquer ser
O poder dele não cai.

Versão de João Martins de Athayde:

Isto fica como exemplo
Então ver-se-á onde vai
A soberba é abatida
No abismo tudo cai
Jesus é grande em poder
Reduz ao pó qualquer ser
O poder Dele que é pai.



A venda dos direitos autorais de Leandro Gomes de Barros, pela viúva do poeta, Dona Venustiniana Aleixo de Barros, a João Martins de Ataíde ocorreu em 1921. O pesquisador Sebastião Nunes Batista, que muito se empenhou pela restituição de autoria de Leandro e de outros poetas populares, informa como se deu essa transação, em artigo intitulado "O seu ao seu dono..." publicado na revista Encontro com o Folclore (Rio de Janeiro, 5 de abril de 1965):

"D. Vênus, como era chamada na intimidade, desentendera-se com o seu genro Pedro Batista, porque tendo este enviuvado de sua filha Rachel Aleixo de Barros, que faleceu de parto da pequena Djenane, não concordou em que a menina fosse para companhia da avó materna, e esta em represália autorizou João Martins de Athayde a editar parte da obra literária do grande poeta popular paraibano Leandro Gomes de Barros."

Escreveu folhetos de cordel de grande aceitação popular, como O Cachorro dos Mortos, Branca de Neve e o Soldado Guerreiro, Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, Peleja de Riachão com o Diabo, História da Donzela Teodora, Juvenal e o Dragão, Antônio Silvino, o Rei dos Cangaceiros e O Boi Misterioso. Pioneiro na produção de literatura de cordel no país, Leandro Gomes de Barros foi considerado por Luís da Câmara Cascudo "o mais lido de todos os escritores populares. Escreveu para sertanejos e matutos, cantadores, cangaceiros, almocreves, comboieiros, feirantes e vaqueiros. É lido nas feiras, nas fazendas, sob as oiticicas, nas horas do 'rancho', no oitão das casas pobres, soletrado com amor e admirado com fanatismo. Seus romances, histórias românticas em versos, são decorados pelos cantadores".

AINDA SOBRE A MORTE DO POETA

Segundo Ruth Brito Lemos Terra, Leandro faleceu no dia 04 de março de 1918, na rua Passos da Pátria - Recife, endereço que só aparece em seu livro Memória de Lutas: Literatura de Folhetos no Nordeste - 1893 - 1930, editora Global, 1983, uma das fontes mais dignas de crédito. Sobre esse fato, vejamos o que escreveu Permínio Ásfora, no Diário da Noite de Recife, em 13/12/1949, em artigo intitulado "Crise no romanceiro popular":

"Trechos de sua vida são lembrados ainda hoje. Contam que já morava aqui no Recife quando um senhor de engenho, indignado com um morador, resolveu aplicar neste uma sova de palmatória. (...) Um dia o senhor de engenho é surpreendido por violenta punhalada vibrada pela mesma mão que levara seus bolos. O poeta Leandro aproveita o caso policial, transformando-o em folheto que era um libelo contra o senhor de engenho. Descreve em "O punhal e a palmatória", com calor e simpatia, a inesperada vindita. O chefe de polícia, enfurecido com a literatura de Leandro, manda metê-lo na cadeia. Apesar de folgazão, Leandro era homem de muita vergonha e de muito sentimento. E como naquele já distante ano de 1918 a cadeia constituía uma humilhação, à humilhação da cadeia sucumbiu o grande trovador popular"

Ásfora cita a seguir uma estrofe do dito folheto que afirma ser a primeira:

"Nós temos cinco governos
O primeiro, o Federal,
O segundo o do Estado,
O terceiro, o municipal,
O quarto é a palmatória
E o quinto o velho punhal".

Ruth Terra, nas pesquisas de seu livro já mencionado, encontrou o dito folheto "A palmatória e o punhal" no acervo dos Fundos Vila-Lobos e constatou que a primeira estrofe difere daquela citada por Permínio Ásfora:

"Desde que entrou a República
Que o nosso país vai mal
Pois o lençol da miséria
Cobriu o mundo em geral
Deixando a mão entregue
À palmatória e ao punhal".

A referida escritora não teve o cuidado de verificar se a estrofe recolhida por Permínio Ásfora encontra-se em outro trecho do referido folheto, apreendido pelo chefe de polícia de Recife em 1918. Alguns pesquisadores afirmam que Leandro morreu vítima da Influenza espanhola.

LEANDRO POR ELE MESMO

A cabeça, um tanto grande e bem redonda,
O nariz, afilado, um pouco grosso:
As orelhas não são muito pequenas,
Beiço fino e não tem quase pescoço.

Tem a fala um pouco fina, voz sem som,
Cor branca e altura regular,
Pouca barba, bigode fino e louro,
Cambaleia um tanto quanto no andar.

Olhos grandes, bem azuis, têm cor do mar:
Corpo mole, mas não é tipo esquisito -
Tem pessoas que o acham muito feio,
Mas a mamãe, quando o viu, achou bonito!

Não se sabe ao certo o número de histórias que escreveu. Estima-se que foi autor de mais de 600 obras, das quais, pelo menos umas 50 são verdadeiros clássicos do gênero.

Alguns escritores insistem em chamá-lo de "caboclo entroncado". Baixo sim, caboclo não! Leandro era louro, de olhos azuis, bigode louro também, como o seu irmão Daniel, que apresenta as mesmas características, conforme descrição de sua bisneta Cristina da Nóbrega (Teófila).

MEIA-NOITE NO CABARÉ - A POLÊMICA

Diversos autores simpatizantes do poeta João Martins de Athayde tentam atribuir ao poeta do Ingá do Bacamarte a autoria de alguns folhetos comprovadamente escritos e editados por Leandro, baseados em informações nebulosas, que nas mãos de um leitor mais atento e informado são facilmente dissipadas. Agem ao contrário de Sebastião Nunes Batista, que foi criterioso em sua pesquisa e procurou basear-se em edições bem antigas, impressas entre 1900 a 1921, por Leandro ou por seu genro Pedro Batista, cujo valor histórico e documental é incontestável.

Para citar apenas um exemplo, vejamos o que diz Umberto Peregrino em sua obra Literatura de Cordel em Discussão, Editora Presença, 1984, Rio de Janeiro, (pág 133): "Quem era lido em Camões (refere-se à Athayde) é possível que freqüentasse também outros autores capazes de enriquecer a sua inspiração. Daí a hipótese de "A noite na taverna" (de Álvares de Azevedo) haver sido a fonte inspiradora de "Meia-Noite no Cabaré", folheto que teria circulado em 1901, cuja autoria o professor Átila de Almeida atribui, com segurança a Athayde, repelindo a hipótese de Leandro, que jamais se daria a leituras como a de Camões ou de Álvares de Azevedo".

Eis um argumento frágil e fácil de rebater.

1 - Leandro era leitor assíduo de vários livros, fontes permanentes de inspiração para elaboração de seus poemas, como se vê na estrofe final do folheto "História da Donzela Teodora":

"Caro leitor, escrevi
Tudo que no livro achei
Só fiz rimar a história
Nada aqui acrescentei
Na história grande dela
Muitas coisas consultei."

Cascudo detectou semelhanças entre seu personagem Canção de Fogo e o livro Palavras Cínicas, de Albino Forjaz de Sampaio. Sabe-se também que Leandro compôs a Batalha de Oliveiros com Ferrabrás e A prisão de Oliveiros inspirado no livro de Carlos Magno e os Doze Pares de França. Fez a Donzela Teodora "Tirado tudo direto do livro grande dela", Juvenal e o Dragão vem do conto "Os três Cães", Pedro Cem também vem de um livro de origem lusitana. Os Martyrios de Christo vem, certamente, de O Mártyr do Gólgotha, do romancista espanhol Enrique Pérez Escrich. E muitos outros exemplos... Seu genro Pedro Batista, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba era dono de livraria em Guarabira e estava familiarizado com os clássicos da Literatura portuguesa e Brasileira. Leandro certamente freqüentava a sua livraria (bem como a do amigo Chagas Batista, na capital da Paraíba) e tinha acesso a essas obras. Assim sendo, porque cargas d'água o professor Átila de Almeida acha impossível Leandro ter lido Álvares de Azevedo?

2 - Se o folheto "Meia-Noite no cabaré" circulou em 1901, conforme atestam Átila de Almeida e Egídio de Oliveira Lima (in Folhetos de Cordel, Editora Universitária/UFPb, 1978 - p. 74, que o atribui à Leandro) seguramente não é de Athayde, pelo simples fato de que ele mesmo afirmou, em várias entrevistas, haver iniciado suas atividades poéticas em 1908. Nessa data, provavelmente, estava na Amazônia, fazendo filhos ilegítimos nas índias e aprendendo curandeirismo com os Pajés.

3 - Se formos nos aprofundar nesse assunto, não há um único argumento dos defensores de Athayde que não seja facilmente demolido, com provas concretas e cabais. Liêdo Maranhão de Sousa, em seu livro "O Folheto Popular: Sua Capa e seus Ilustradores" Ed. Massangana, 1981, p. 35, incorre no mesmo erro, baseado, certamente, em declarações de Delarme Monteiro, de quem era amigo. Falando sobre as capas de "folhetos de Athayde" ilustradas com desenhos de Antonio Avelino Costa, funcionário do Jornal do Recife, (a maioria dos que Liêdo atribui ao poeta do Ingá do Bacamarte são comprovadamente de Leandro, ex: Vida de Pedro Cem, História de João da Cruz, A mulher em tempo de crise etc), Liêdo diz que Meia-Noite no Cabaré é um "livro que Athayde escreveu, inspirado no Curral das Éguas, antiga zona do meretrício no Pina, em noitada com o companheiro Delarme Monteiro."

Ora, já informamos aqui que Egídio de Oliveira Lima e outros autores atestam a antiguidade desse texto, datando-o de 1901. Se Delarme Monteiro nasceu em 1918 e passou a trabalhar com Athayde já adolescente, como poderia ter testemunhado a criação de um obra escrita antes de seu nascimento?

4 - Para encerrar a polêmica, vejamos o que diz Egídio de Oliveira Lima in Folhetos de Cordel, Editora Universitária/UFPb, 1978 - p. 74: "Este opúsculo foi publicado uma única vez em 1901, na Imprensa Industrial, Recife. Dificilmente encontraremos um de seus exemplares. O que tenho em mãos pertenceu a coleção de meu avô paterno, Manoel Jesuíno de Lima. (...) O folheto Meia-Noite no Cabaré tinha 16 páginas. O que possuo está fragmentado." Na relação dos cem melhores folhetos de Leandro Gomes de Barros, elaborada por Egídio, Meia-Noite no Cabaré aparece logo na terceira indicação, depois de A Força do Amor e A Morte de Alonso e a Vingança de Marina. Outra incógnita é o romance "História de Roberto do Diabo". Poetas mais antigos, como João Firmino Cabral, atestam que viram edições antiqüíssimas dessa obra com o nome de Leandro na capa. O poeta Klévisson Viana, da Tupynanquim Editora, teima em atribuí-lo a João Martins de Athayde, baseado numa estrofe em que Roberto do Diabo (um personagem medieval) é chamado de "cangaceiro", alegando que Leandro não cometeria um engano desses. Ora, no folheto "A confissão de Antônio Silvino", Leandro diz o seguinte, logo na terceira estrofe:

"E a Escritura nos diz:
Dimas foi um quadrilheiro,
Madalena namorava,
São Paulo foi cangaceiro...
Todos foram perdoados -
São hoje santificados
Graças ao manso Cordeiro!"

Dúvida semelhante paira sobre o folheto "O cavalo que defecava dinheiro", um dos cordéis que inspiraram "O Auto da Compadecida". O próprio Ariano Suassuna, em texto publicado no volume Estudos, de Literatura Popular em Verso, admite que pelo estilo dos versos, o folheto não poderia ser de outro poeta senão do velho Leandro Gomes de Barros. Leandro que foi autor de um folheto intitulado "Os três quengos finos", gostava muito de escrever sobre esse tema (João Leso e Cancão de Fogo também são descritos como "quengos" extraordinários). Quengo, quengada, quengo fino, quengo lixado são expressões que, praticamente, só aparecem na obra de Leandro nas duas primeiras décadas do século XX, período em que circularam as primeiras edições desse folheto. Vejamos mais um caso de "quengo refinado" no folheto "A Confissão de Antônio Silvino", cuja astúcia do padre é assim descrita:

"Disse o padre: - Ora, Jesus
Perdoou ao Bom Ladrão!
Silvino perguntou: - Como
Eu posso alcançar perdão?
Disse o padre: - Se entregando -
Primeiro se confessado,
Se recolhendo à prisão!

Entregando-me o dinheiro,
Que dos outros tem roubado;
Me entregando esse armamento -
Assim será perdoado!
- Vôte! Respondeu Silvino.
Você tem o quengo fino
Mas o meu é refinado!"

Ariano Suassuna oportunamente chama a atenção para o fato de que o compadre pobre de "O cavalo que defecava dinheiro" é descrito pelo autor como um "bicho do quengo lixado". Ao admitir a existência de outras tiradas tipicamente leandrinas, o grande dramaturgo paraibano dá a pista certa sobre a autoria do folheto.

CONCLUSÃO SOBRE "MEIA-NOITE NO CABARÉ" - Pela data do folheto (1901), e pela indicação de autoria que nos fornece Egídio Oliveira Lima, que teve um antigo exemplar de Meia-Noite no Cabaré em mãos (provavelmente da primeira edição), esse clássico é seguramente de Leandro e não da lavra de Athayde.

Arievaldo Viana. Poeta popular, radialista e publicitário, nasceu em Fazenda Ouro Preto, Quixeramobim-CE, aos 18 de setembro de 1967. Desde criança exercita sua verve poética, mas só começou a publicar seus folhetos em 1989, quando lançou, juntamente com o poeta Pedro Paulo Paulino, a Coleção Cancão de Fogo. Em 2000, foi eleito membro da ABLC. É o criador do Projeto ACORDA CORDEL na Sala de Aula, que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos.

:: Em 2008, vinte anos de ABLC
por J. Victtor

Fundada em 7 de setembro de 1988, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel completa em 2008 vinte anos de existência. Nesse período a ABLC foi um pólo de referência para cordelistas de toda parte do país, integrando os estados nordestinos e levando a literatura de cordel com mais força para outras regiões e também para o exterior.

Ajudando o cordel a se reerguer, um dos principais papéis da ABLC é aglutinar os poetas, mantendo uma constante troca de informações, cordéis e livros. O cordel sobrevive sozinho, com ou sem quaisquer academias, mas a existência de uma entidade como essa dá um chão mais sólido, maior respaldo e muito mais respeito a esta literatura tipicamente popular.

Por trás de tudo isso está o incansável poeta e presidente da ABLC, Gonçalo Ferreira da Silva, que faz da ABLC uma central de edição e reedição de folhetos e livros, de permutas, congas, debates, projetos, num verdadeiro caldeirão cultural. Destacamos também a importância de todos os acadêmicos e beneméritos, porque são eles que ajudam a academia a alcançar esta magnitude.

Esperamos que a ABLC tenha mais 100 anos de vida pela frente, que se torne uma instituição tombada pelo patrimônio e protegida por Deus, que seja um exemplo de sobrevivência nesse país tão carente de ajuda pública, mas tão rico em cultura. O tema da ABLC é "Cordel é Cultura". Esperamos que a ABLC seja para sempre.

J. Victtor. Ocupa a cadeira nº 37 do patrono José Soares, na Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

:: Senhor Livro
por Gonçalo Ferreira da Silva

Dedico ao senhor meu livro
eterno e sincero amor,
ele me ensina em silêncio
sem ar de superior;
por ser meu fraterno amigo
antes de dormir eu digo:
- Vou guardar meu professor.

Confidente verdadeiro,
companheiro e aliado,
portanto querido livro
eternamente obrigado,
pois fraternalmente mudo
o senhor me ensina tudo
humildemente calado.

Arquivo de intimidades,
canal de sabedoria,
farol de conhecimentos,
inspirador, mestre e guia
que mostra em poucos instantes
o que há dois minutos antes
o seu leitor não sabia.

Obrigado, senhor livro,
pelo seu grande valor;
só como mestre em carne e osso
não se chega a ser doutor;
mesmo depois de formados
nós somos sempre obrigados
a consultar o senhor.

Como Confúcio o senhor
faz bem sem olhar a quem
e sem esperar jamais
recompensa de ninguém;
o título, com mil louvores
de professor dos doutores
ao senhor cai muito bem.

Gonçalo Ferreira da Silva. Presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, escreveu este pequeno poema em homenagem ao livro, seu inseparável companheiro. Senhor Livro está sendo usado por diversas escolas em seus corredores, para estimular a leitura dos alunos.

:: O Cantor da Borborema e o Pavão Mysterioso
por Arievaldo Viana

JOÃO MELCHÍADES FERREIRA O Cantor da Borborema, nasceu em Bananeiras-PB aos 07 de setembro de 1869 e faleceu no dia 10 dezembro de 1933. Sentou praça no exército aos 19 anos de idade, ainda na monarquia, sendo promovido a sargento após a Guerra de Canudos, onde combateu. Em 1897 casou-se com Senhorinha Melchíades, com quem teve quatro filhos. Sua filha Santina Melchíades da Silva, prestou excelentes informações sobre o poeta à pesquisadora Ruth Brito Lêmos Terra, autora do livro "Memória de Lutas: Literatura de Folhetos do Nordeste 1983-1930. Nesta obra, a autora publicou a íntegra de uma correspondência dirigida por João Melchíades à sua esposa, em 1914, onde o poeta fala da primeira edição de CAZUZA SÁTIRO, "que sairia com 66 páginas, maior que o de ESMERALDINA E OTACIANA". O poeta informa ainda o custo de impressão e o preço de revenda dos folhetos, o que torna a correspondência uma verdadeira preciosidade.

De uns tempos para cá, afirmam os pesquisadores mais autorizados que o Pavão publicado por João Melchíades era na verdade um "plágio" ou "recriação" de obra criada por José Camelo de Melo. Aterrizando esse Pavão voador e dissipando todo o mistério que o envolve, é bom que se esclareça a verdade: o pavão de alumínio, pilotado sorrateiramente pelo cantador Romano Elias, fugiu em noite silenciosa da oficina de seu criador JOSÉ CAMELO DE MELO (nascido na povoação de Pilõezinhos, município de Guarabira-PB e falecido em Rio Tinto-PB, aos 28 de outubro de 1964), um poeta que "cantou, mas não teve sorte" como ele próprio afirma no final de um romance de sua autoria - indo parar no "hangar" de Melchíades. Camelo já havia composto a história do Pavão mas não a havia publicado, limitando-se apenas a cantá-la em suas apresentações.

Melchíades, de posse de uma cópia do poema e aproveitando-se da ausência de Camelo, reescreveu o tema e o publicou. Uma versão deste episódio, atribuída ao poeta Joaquim Batista de Sena, (admirador da obra de Camelo e seu amigo pessoal), dá conta de que na época em que o "Pavão" foi publicado, José Camelo teve que deixar a Paraíba para refugiar-se no interior do Rio Grande do Norte devido uma situação complicada. José Camelo de Melo era, além de grande poeta, um exímio xilógrafo, dado que vem a ser confirmado por Átila de Almeida e José Alves Sobrinho em seu Dicionário Biobibliográfico dos Repentistas e Poetas de Bancada. Como tal, teve seu trabalho de xilógrafo requisitado por donos de alambiques para falsificar selos e burlar a fiscalização da Fazenda paraibana. A atividade ilícita veio a ser descoberta e José Camelo fugiu de seu estado natal temendo ser preso. Teria sido justamente nesse período que o cantador Romano Elias, de posse de uma cópia do poema, o teria apresentado a João Melchíades que reescreveria o tema e o publicaria em seguida.

É inadmissível a afirmativa de que João Melchíades teria simplesmente usurpado a autoria da obra. No mínimo, ele reescreveu a história do Pavão, fazendo sensíveis modificações em sua estrutura, o que achamos mais provável, haja visto um depoimento de Maria de Jesus Silva Diniz, filha de José Bernardo da Silva, onde a mesma assegura que o Pavão de José Camelo teria 40 páginas, enquanto a versão de Melchíades, que chegou ao nosso conhecimento e que ela publicava em sua tipografia, tem apenas 32 páginas, tratando-se evidentemente de uma versão mais resumida. O poeta Expedito Sebastião da Silva, chefe gráfico da Lira Nordestina, ainda teria mais um dado a acrescentar. Segundo ele, José Camelo de Melo ficou revoltado porque o público tinha larga preferência pela versão de Melchíades o que o levou a destruir os seus originais. Detalhe, na versão de José Camelo de Melo, publicada após a de Melchíades, Evangelista, o personagem central da trama, destrói o Pavão Misterioso a pedido do engenheiro Edmundo, inventor do aeroplano.

A RELEITURA DO PAVÃO - Em 1992, encontrei o já consagrado cartunista/ilustrador JÔ OLIVEIRA no Salão Nacional de Humor de Campina Grande-PB e ele me mostrou, empolgado, as primeiras pranchas do Pavão Misterioso, com texto em prosa e um formato que mais lembrava um álbum de HQ. Posteriormente, ele utilizou o tema para desenvolver selos para os Correios. O Pavão voou os quatro cantos do mundo no traço de Jô Oliveira, e acabou ganhando três edições com texto em prosa. Início de 2007, reencontrei o Jô por acaso e ele me falou do seu desejo de recontar a história do PAVÃO em cordel, com linguagem mais atual, mais apropriada para o público infanto-juvenil, colocando alguns personagens no Nordeste (no caso os irmãos João Batista e Evangelista, o cavalo Ventania e o cachorro Corisco, estes últimos criação sua, que não aparecem na antiga versão de Melchíades/Camelo). Topei o desafio e fiz uma síntese da trama em sextilhas, apresentando novos personagens e fazendo ajustes necessários para o público de hoje (a versão primitiva é de 1926). O resultado ficou satisfatório e a prova disso é que antigos fãs do folheto de cordel ficaram encantados com o novo formato. É gratificante, também, notar o interesse de pedagogos e arte-educadores, que pretendem adotá-lo como paradidático em 2008. A edição do mesmo ficou a cargo da editora cearense IMEPH, que se lança no mercado com uma coleção de 20 títulos, a maioria utilizando a linguagem do Cordel. A parceria com Jô Oliveira irá render novos frutos... Estamos desenvolvendo, de uma só tacada, os seguintes livros: A AMBIÇÃO DE MACBETH, O BICHO FOLHARAL, ARTIMANHAS DE JOÃO GRILO, e EL CID, todos em cordel, para as editoras IMEPH, CONHECIMENTO e CORTEZ.

Arievaldo Viana. Poeta popular, radialista e publicitário, nasceu em Fazenda Ouro Preto, Quixeramobim-CE, aos 18 de setembro de 1967. Desde criança exercita sua verve poética, mas só começou a publicar seus folhetos em 1989, quando lançou, juntamente com o poeta Pedro Paulo Paulino, a Coleção Cancão de Fogo. Em 2000, foi eleito membro da ABLC. É o criador do Projeto ACORDA CORDEL na Sala de Aula, que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos.

:: Cento e trinta anos do início da grande seca de 1877-1879
por José Romero Araújo Cardoso

Cento e trinta anos atrás, efetiva-se gênese de implacável prova de fogo enfrentada pelo povo do semi-árido nordestino, de cujos rigores atingiram zonas úmidas e pouco afetada pela ação inexorável do inconstante vento alíseo de nordeste, responsável majoritário pelos fenômenos cíclicos de estiagem que vez por outra castigam violentamente grande parte do interior nordestino.

Coincidentemente, quando da seca de 1877-1879, foi registrado impressionante aquecimento das águas do pacífico sul-americano, devido incríveis erupções vulcânicas submarinas no círculo do fogo que circunda o continente americano. A relação El Niño - secas no nordeste brasileiro só foi enfatizada recentemente.

Aflição inenarrável tomou de conta da desvalida população nordestina, bem como da região norte de Minas Gerais, onde a espacialização no vale do Jequitinhonha se efetivou condicionada pelos rigores das secas, impactando também, de forma implacável, o modus vivendi do povo imortalizado pela literatura de João Guimarães Rosa.

Inúmeras dificuldades impediram a consolidação de auxílios pelo governo imperial, clamados de forma angustiante pelo povo que sofria com as calamidades indescritíveis. Proliferaram os casos de antropofagia, pois até o couro que singulariza a cultura nordestina, no que tange à produção material, de uso diário, foi consumido pela população faminta.

A biodiversidade, adaptada aos rigores do clima e dotada naturalmente de experiência para a continuidade da vida, também sofreu implacavelmente com as conseqüências tétricas da grande seca de marcas indeléveis no século XIX. A falta d'água fez com que animais perecessem de sede, enquanto a caatinga cinzenta, não obstante o ensejo da catástrofe natural, mostrou-se resistente, revitalizando-se plenamente quando do grande inverno de 1880.

Rodolfo Teófilo afirmou que no Ceará mais de trezentas mil pessoas morreram de fome e sede ou emigraram para a Amazônia e Centro-Sul brasileiros. A descendência de significativo percentual da população do Estado do Acre confirma tendência nordestina, principalmente cearense, em buscar sobreviver, quando das secas, emigrando para a região norte, fenômeno demográfico que a partir da década de cinqüenta do século XX voltou-se majoritariamente para a região Sudeste, quando da ênfase à industrialização tardia e dependente.

O imaginário de fração do povo nordestino, referindo-se aos efeitos e transtornos provocados pela grande seca de 1877-1879, não obstante a férrea batalha de aculturação movida pela globalização, ainda se revela marcado por histórias dantescas transmitidas de geração a geração, embora provas documentais referendem a dramaticidade dos fatos, a exemplo do caso de antropofagia que convulsionou a pequena localidade de Pombal, estado da Paraíba, quando do rapto, assassinato e esquartejamento de criança, responsabilidade de inditosa retirante de nome Donária dos Anjos, de cujo argumento para a prática do ato bárbaro, quando da inquirição promovida pela justiça, alegou fome insuportável como motivo do hediondo crime.

Impossível evitar as secas, mas implementar soluções para a convivência do homem com a natureza indômita do semi-árido deve nortear o ideário dos poderes públicos e privados, sem esquecer da necessidade pragmática de também priorizar a educação ambiental, principalmente devido ao atual estágio do processo de desertificação, disponibilizando dessa forma melhores condições de vida ao povo da civilização das secas, minimizando assim dramas que são exemplificados através das inúmeras provações, quando da grande seca de 1877-1879, enfrentadas pelo gênero humano que desafia as causticantes intempéries da porção semi-árida brasileira.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

:: Considerações geo-históricas sobre a conurbação caririense
Cra-Ju-Bar

por José Romero Araújo Cardoso

Entende-se por conurbação como a contínua, progressiva ou lenta conexão urbana interligando cidades, sendo mais constante em importantes pólos que concentram de forma efetiva o grande capital. Encontramos exemplos disso, respectivamente correspondentes aos mundos desenvolvido e subdesenvolvido, nas megalópoles que foram sendo estruturadas entre Boston e Washington (EUA) e Rio de Janeiro e São Paulo (Brasil).

Fenômeno interessante vem sendo registrado no sul do Ceará, região fertilíssima que perfaz verdadeiro oásis, no qual se intercalam espécies vegetais características de quatro biomas (Mata Atlântica – Caatinga – Floresta equatorial Amazônica – Cerrado), na qual o Juazeiro do Norte se destaca como o mais importante centro, constituindo-se na segunda cidade do Estado do Ceará em população e importância econômica, status não muito tempo desfrutado por Sobral.

Surgida entre Crato e Barbalha, a atualmente importante cidade cearense de Juazeiro do Norte fôra outrora, no século XIX, pousio de tropeiros que iam e vinham pelas trilhas tortuosas das quebradas do sertão central, palmilhando a extensa zona que tinha Aracati como destino dos velhos almocreves que marcaram toda uma fase econômica no sertão nordestino. O Joazeiro, onde descansavam os importantes agentes econômicos sertanejos, os quais eram os responsáveis da condução do transporte de cargas, em um passado não tão remoto, foi abrigando ao seu derredor pessoas de várias procedências, já existindo, no ano de 1872, modesta capela dedicada a Nossa Senhora das Dores.

Integrante do espólio do Padre Pedro Ribeiro, o pequeno lugarejo do Joazeiro era composto de setenta e duas casas humílimas quando da chegada daquele que se tornaria o principal personagem da história do lugar. Acompanhado da mãe e das irmãs, vindos do Crato, Padre Cícero Romão Batista encontrou na localidade farta matéria-prima a fim de trabalhar vocação sacerdotal, tornando-se respeitado em razão da forma como efetivou reversão da penosa realidade moral do Joazeiro, verificada quando de sua fixação, a qual se revelaria definitiva e profundamente marcante para a expressão espaço-temporal do mais importante município que integra a conurbação Cra-Ju-Bar.

Protagonizando “milagre” quando ministrou comunhão a uma beata de nome Maria de Araújo, em missa celebrada na capela de Nossa Senhora das Dores, no início do mês de março de 1888, Padre Cícero, sem perceber de imediato, dava início a complexo processo de crescimento e conquista de importância político-econômica contínua, avassaladora e impressionante do mísero lugarejo, cuja população ainda era formada em boa parte por gente extremamente sofrida, excluída inflexivelmente da estrutura abastada e exclusiva formada a partir das práticas fomentadas a partir do final do século XVII pela “nata” da sociedade sertaneja agro-pastoril, responsável pelo implemento colonizador das perigosas porções interioranas, principalmente as do semi-árido nordestino.

Mitos antes mesmo da morte do velho vigário, no ano de 1934, o ícone Padre Cícero e o culto à sua figura assumiram proporções inacreditáveis, crescendo de forma impressionante nas décadas seguintes. Representam, em nossa época, uns dos mais importantes elementos culturais que singularizam o nordeste brasileiro.

Romarias contínuas, ano após ano, foram implementando fixação populacional em Juazeiro do Norte, a qual foi sendo direcionada em rumo dos vizinhos municípios do Crato e de Barbalha. Com significativo percentual de alagoanos e descendentes, tendo em vista que, de forma interessante, ecos do “milagre da hóstia” ressoaram impressionantemente em Alagoas, as manifestações da religiosidade popular nordestina refletem-se sobre os territórios dos três municípios caririenses, através da crescente massa de romeiros que decide ficar morando na terra em que o Padim Ciço deixou as marcas de seus calçados.

Molas propulsoras da dinâmica economia Juazeirense, os romeiros transgridem enraizadas tradições e disputas que marcaram as relações históricas entre os centros urbanos que integram a conurbação caririense conhecida por Cra-Ju-Bar. Lócus de disputas políticas acirradas, as quais marcaram indelevelmente as primeiras décadas do século XX, Juazeiro do Norte e Crato, principais cidades que integram o intrigante e interessante fenômeno urbano que singulariza a geografia urbana do sul do estado do Ceará, interconectam-se como fossem metáfora, referente às formas assumidas pelas exigências do capital, pois se faz necessária explicação sobre impossível processo em tempos pretéritos, a qual é compreendida através da divisão radical entre os dois núcleos, registrada pela história quando da mais impressionante demonstração de força efetivada pela articulação inusitada do messianismo com o coronelismo, cujo ponto culminante foi a guerra de 1914.

Rabelistas e Aciolistas, sendo que os primeiros, quando da guerra de 1914, se concentraram no Crato, enquanto os segundos ocupavam as trincheiras defensivas no Juazeiro do Padim Ciço, digladiaram-se em feroz luta armada que culminou na ocupação de Fortaleza pelos romeiros do Padre Cícero, comandados pelo caudilho Floro Bartolomeu da Costa, os quais retiraram à força, do comando no governo do estado do Ceará, Marcos Franco Rabelo, militar que representou a experiência salvacionista na terra de Iracema, cuja prática política foi enfatizada na gestão Hermes da Fonseca enquanto medida severa contra o eterno predomínio de tradicionais oligarquias que enfeudaram todas as regiões brasileiras durante maior parte da denominada república velha.

Em Barbalha, terra da matriarca Bárbara de Alencar, a ênfase à conurbação caririense segue sem se chocar de forma significativa com a história e a memória locais. Espaço e tempo, em ambos núcleos urbanos, estando Barbalha localizada a cerca de 15 km do segundo município do estado do Ceará, enquanto o Crato dista 16 km da terra do Padim Ciço, frisam às categorias harmonia efetiva da primeira cidade, acima mencionada, com o Juazeiro do Norte, em razão que não houve confrontos sérios como os que marcaram profundamente as relações sócio-culturais entre a terra que o Padre Cícero elegeu para efetivar-se e a que ele nasceu, velho burgo caririense comandado, por longo período, pelo “Coronel” Antônio Luís Alves Pequeno, padrinho e protetor do vigário Joazeirense.

A conurbação compreendida pelo eixo urbano formado pelos municípios cearenses do Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, se constitui em um dos mais curiosos fenômenos apresentados na paisagem e no espaço da geografia urbana estruturada pela ação do homem em território brasileiro, pois tal efetivação exige que explicações complexas articulem holística expressão de interdisciplinaridade enquanto fundamento às análises científicas concisas acerca da dimensão assumida pela importante estrutura geográfica que continuamente se efetiva, ano após ano, alicerçada indubitavelmente nas práticas culturais que permeiam a preservação e permanência das tradições populares nordestinas quanto ao culto devotado ao Padre Cícero, célebre figura de sua época, a qual tornou-se expressão tentacular e multifacetada da complexidade e dos desdobramentos do movimento que liderou e o tornou figura de proa da única manifestação messiânica brasileira que conquistou sucesso e respeito entre os donos do poder, os quais , experts na arte de ludibriar, há tempos imemoriais manipulam complexas estruturas que garantem a reprodução da hegemonia e da dominação.

Espaços nos quais se localizam no presente importantes atividades econômicas, responsáveis pelo fomento à lógica do capital, o eixo Crato-Juazeiro-Barbalha se caracteriza pela variedade das estruturas antrópicas apresentadas em suas paisagens artificiais, sejam no âmbito econômico-financeiro-industrial ou sócio-cultural, além das manifestações contraditórias do espaço, definidas pela forma como as relações sociais de produção são fomentadas. O fenômeno urbano que singulariza o cariri cearense desperta interesse pela forma ímpar como se concretiza, principalmente entre os geógrafos, em razão de permitir necessária compreensão da totalidade geo-histórica que embasa o polivalente e valioso objeto de estudo daqueles que enxergam o nordeste como fonte inesgotável de implemento a estudos científicos sobre a região que se singulariza pela proeminência de problemas e urgentes necessidades de se enfatizar proposta para soluções de dolorosos dramas sociais que persistem, tornando indignas as condições de vida da maioria, na qual se encontram diversas famílias de romeiros, entregues à própria sorte em espaços extremamente desconfortáveis, nos quais a carência impera, personificando, dessa forma, dramática injustiça social que desafia as lutas por melhores condições de vida para os excluídos da riqueza produzida na rica região polarizada pela “Meca Nordestina”.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

:: Jesuíno Brilhante
por José Romero Araújo Cardoso

Chamava-se na verdade Jesuíno Alves de Melo Calado, nascido no ano de 1844. Era natural da zona do Patu, Estado do Rio Grande do Norte. O sítio Tiuiú foi seu reduto, firmando seu valhacouto inexpugnável na casa de pedra da serra do cajueiro, próximo ao local onde nasceu.

Fez-se chefe de cangaço devido intrigas com a família Limão, protegida por influentes potentados rurais das províncias do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Mello (1985, p. 92) afirma que “seus principais biógrafos são unânimes em reconhecer-lhe o caráter reto e justiceiro”.

Jesuíno Brilhante agiu no semi-árido da Paraíba e do Rio Grande do Norte, quando a instituição do escravismo ainda vicejava de forma proeminente, cuja estrutura refletia as exigências da classe dominante em fazer valer seus interesses, em detrimento de valores humanos.

Esse cangeceiro transformou-se em Robin Hood, intervindo em prol dos humildes em diversas oportunidades, com ênfase quando da grande seca de 1877-1879, atacando comboios de víveres enviados pelo governo imperial, distribuindo-os com famintos e desvalidos dos sertões ermos e esquecidos.

Mello (id.; ibid.) afirma ainda que “como principais asseclas podem ser mencionados seus irmãos Lúcio e João, seu cunhado Joaquim Monteiro e mais os cabras Manuel Lucas de Melo, o Pintadinho; Antônio Félix, o Canabrava; Raimundo Ângelo, o Latada; Manuel de Tal, o Cachimbinho; José Rodrigues; Antônio do Ó; Benício; Apolônio; João Severiano, o Delegado; José Pereira, o Gato; e José Antônio, o Padre.”

Entre as mais fantásticas de suas ações encontram-se o ataque à cadeia de Pombal, na Paraíba, no ano de 1874, e a resistência à prisão no Martins, Rio Grande do Norte, em 1876.

Embora tenha feito várias alianças com chefes políticos, a exemplo da firmada com o Comandante João Dantas de Oliveira, a fim de que houvesse condições de atacar a cadeia de Pombal, intuindo libertar o irmão e o pai que ali se encontravam prisioneiros, Jesuíno se indispôs com o mandonismo local devido sua ética cangaceira.

A negativa em assassinar eminente professor de nome Juvêncio Vulpis Alba, em Pombal, rendeu-lhe a inimizade com o todo poderoso Comandante João Dantas, o que resultou em conluio deste com o preto Limão para que o vingador sertanejo fosse assassinado.

Jesuíno morreu de emboscada na localidade de Riacho dos Porcos, em Belém do Brejo do Cruz, na Paraíba, no finalda seca de 1879-1879, atingido por carga de bacamarte disparada pelo Pretro Limão, seu visceral inimigo.

Bibliografia consultada:

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol – O banditismo no nordeste brasileiro. Recife: FUNDAJ: Ed. Massangana, 1985: XVIII+310 p::20 fotos. - (Estudos e pesquisas, 36)

NONATO, Raimundo. Jesuíno Brilhante: O cangaceiro romântico. 2 ed. Mossoró/RN: Fundação Vingt-un Rosado, 2000.

(*) Trabalho organizado pelo professor Ms. José Romero Araújo Cardoso.
Auxliares de pesquisa:
Professora Tânia Maria de Sousa Cardoso- Pedagoga. Especialista em Literatura Brasileira.
Professora Angelina Maria – Poetisa e psicoepeadgoga
Coordenado por Eliana Cobbett.


Sugestões de temas abordados dentro do filme Jesuíno Brilhante – O cangaceiro, que podem ser trabalhados em sala de aula com os alunos

1. A grande seca – 1877-1879.

1.1 – O que representou a grande seca de 1877-1879 no sertão nordestino?
1.2 – Como acontece o fenômeno das grandes secas no sertão nordestino?
1.3 – Quais os problemas gerados.
1.4 - O que os sertanejos fizeram para sobreviver?
1.5 – O que o governo imperial fazia para ajudar a população na época da grande seca de 1877-1879.

2. Coronelismo como donos do poder, das terras, dos meios de produção e a abolição dos escravos em 1888.

2.1 – O que era ser escravo negro no Brasil?
2.2 – O que é Coronelismo?
2.3 – Por quê existiam escravos?
2.4 – Para que serviam os escravos?
2.5 – Como era feito o pagamento do trabalho escravo?
2.6 – De que países da África provinham os negros que aqui chegavam?
2.7 – Qual a relação existente entre patrão e empregado no período que vai de 1888 e os nossos dias?

3. Cangaceiros e bandidos.

3.1 – Qual a origem do nome cangaceiro?
3.2 – Quais os primeiros cangaceiros do sertão nordestino?
3.3 – Qual o mais conhecido cangaceiro do sertão?
3.4 – Qual a diferença entre Jesuíno Brilhante e Lampião?
3.5 – Por quê?
3.6 – O que é ser Robin Hood?
3.7 – Qual a diferença existente entre cangaceiro e bandido Robin Hood?
3.8 – Por quê Jesuíno Brilhante foi considerado herói “ Robin Hood” do sertão mesmo sendo um fugitivo da lei?

Respostas aos temas propostos:

1. A grande seca – 1877-1879

1.1 – Representou um dos mais dolorosos flagelos à população do semi-árido nordestino, sobretudo as mais pobres. Houve intensa migração para a Amazôniae o Sudeste, além de incontáveis perdas humanas traduzidasem mortes. Animais domésticos e selvagens também morreram em profusão. A grande seca de 1877-1879 desestruturou os meios de produção e as forças produtivas do semi-árido.

1.2 – Pesquisas científicas comprovam que o fenômeno natural de aquecimento das águas do pacífico sul-americano, o El Niño, interfere na circulação da massa de ar nordeste, impedindo que massas de ar proveniente do sul, frias, se encontrem com massasde ar quente, riundas do equador. Aliada a isso tem-se a barreira orográfica representada pelo planaltoda borborema, que também impede a passagem de massas de ar que poderiam trazer chuvas.

1.3 – A agropecuária foi desestruturada, a miséria atingiu patamares estratosféricos. A morte se espraiou pelos campos nordestinos.

1.4 – Os sertanejos migraram em massa, sobretudo para a Amazônia e Sudeste. Os que ficaram na região comeram couro de cadeiras, móveis e sementes nativas, como a mucunã. Das cactáceas retiravam água.

1.5 – Enviava mantimentos para s coronéis fiéis ao império distribuir com a população,ao invés de democratizar o acesso,os potentados distribuiam com os correligionários.

2. Coronelismo como donos do poder, das terras, dos meios de produção e a abolição dos escravosem 1888.

2.1 – Ser escravo negro no Brasil, na maioria dos casos, era estar submetido aos mais desumanos suplícios, ser tratado, conforme João Antonil, membro da Igreja Católica que apoiou o escravismo, autor do livro Cultura e opulência no Brasil em suas drogas e minas, defendia que os negros tinham que ser tratados com três pês: Pano, pau e pano.

2.2 – Era uma política de compromissos envolvendo poderes imperial, provincial e municipais, surgida no Brail Império com a guarda nacional, quandoa obediência se fazia necessária. O Coronelismo assegurava plenos poderes aos potentados locais.

2.3 – Para fazer os trabalhos pesados nas lavouras e minas, bem como os domésticos, em razão de que acumulação da classe dominante exigia tal relação.

2.4 – Pela rebeldia dos índios em realizar trabalhos braçais, os escravos negros foram trazidos da África e brutalmente inseridos na exigência metropolitanas de gerar riquezas a todos custo.

2.5 – Era feita apenas como o fornecimento de parcos alimentos, toscas vestimentas e muita violência.

2.6 – Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, das colônias portuguesas.

2.7 – Das regiões de Angola e Guiné Bissau, ou seja, principalmente da África Ocidental, locais onde os Holandeses, fornecedores de escravos a Portugal, concetraram suas investidas desumanas.

2.8 – Como o país era eminentemente voltado para atividades agrárias, à exceção das áreas contempladas com a imigração estrangeira, havia predominância de relações sociais de produção pré-capitalistas, como a parceria, o arrendamento, a meia, etc. Depois, com os sucessivos processos de substituição de importaçõese o advento da industrialização, houve ênfase ao assalariamento.

3. Cangaceiros e bandidos.

3.1 – Há diversas hipóteses. Câmara Cascudo enfatiza que Cangaço era o conjunto de objetos miúdos dos pobres, equipamento que conduziam os valentões de outrora. Outra vertente diz que cangaço vem de canga, instrumento que subjuga os animais no trabalho do eito. A vida nômade no cangaço era estressante, razão por que os bandoleiros se apoiavam nas armas longas, parecendoque estavam na canga.

3.2 – Cabeleira, noséculo XVIII. Lucas da Feira, no século XIX. Rio Preto, no século XIX e Jesuíno Brilhante, no século XIX.

3.3 – Lampião e seu bando.

3.4 – Origens e ações. A origem de Jesuíno era vinculada ao mandonismo local, enquanto Lampião vinha de sitiantes humildes. Jesuíno se portava de forma honrada, enquanto Lampião se portava de forma ensandecida e tresloucada.

3.5 – Há estudos diversos sendo enfatizados, considerando desvios de comportamento.

3.6 – Com base no imaginário inglês, a tradição nos transmite que Robin Hood e seu alegre bando roubavam dos ricos para dar aos pobres. Robin Hood seria um bandido social que implementava justiça.

3.7 – O cangaceiro bandido é aquele que não tem ética e nem compaixão, enquanto o Robin Hood é o inverso.

3.8 – Devido a forma nobre e honrada como se portou, roubando os comboios de víveres quandoda grande seca de 1877-1879 para distribuir aos pobre famintos, além de promover justiça às famílias desonradas.

José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

:: Mulheres de briga: soldaderas e cangaceiras no corrido e no cordel
por Carina Troina

The culture expects women to show greater acceptance of, and commitment to, the value system than men. The culture and the church insist that women are subservient to males. If a woman rebels she is a mujer mala. If a woman doesn’t renounce herself in favor of the male, she is selfish. If a woman remains a virgin until she marries, she is a good woman.
(Gloria Anzaldúa, 1999, p.39)

Tanto o sertão nordestino como o México são tradicionalmente regiões cujas comunidades seguem preceitos extremamente patriarcais . O homem atua como o chefe da casa, o provedor, sendo dotado das características valorizadas pela sociedade patriarcal como coragem, força e inteligência. À mulher cabe o papel de dona do lar, submissa e subserviente ao marido, devendo exercer as atividades inerentes a sua condição: cuidar dos afazeres domésticos e criar os filhos. Não é surpreendente o fato de a poesia popular refletir e, muitas vezes, reforçar essa ideologia – como acontece em vários corridos e cordéis. O corrido é a poesia cantada de caráter popular produzida e sustentada por indivíduos de origem mexicana . Esse gênero músico-literário originou-se e estabeleceu-se como gênero na região da fronteira México – Estados Unidos, durante os primeiros anos de conflitos na fronteira que tiveram início em meados do século XIX. O cordel é a forma correlata do corrido aqui no Brasil. Essa forma poética estabeleceu-se como gênero no interior do nordeste brasileiro, no final do século XIX.

Neste texto pretendo apontar e discutir duas imagens de mulher – a soldadera representada no corrido e a cangaceira, no cordel –, às quais considerei bastante representativas nos dois gêneros de poesia popular.

Os corridos eram tradicionalmente considerados música de homem, não podendo ser cantados publicamente por mulheres. Os primeiros cantadores e poetas populares conhecidos eram homens, portanto os temas abordados e desenvolvidos nessas produções eram masculinos e permeados pela ideologia patriarcal. Entretanto, não se pode deixar de problematizar a questão da presença – muitas vezes secundária – ou da ausência da figura feminina no corrido e no cordel. É importante ressaltar o fato de os corridos heróicos – considerados os fundadores do gênero – praticamente não apresentarem figuras femininas em suas composições. Portanto, ao mesmo tempo em que o corrido heróico é dotado de grande valor simbólico, por representar uma voz de resistência à dominação ‘anglo’, ele reprime a voz das mulheres; ele “carrega em si um enorme elemento de dominação e repressão interna, a repressão do gênero Outro”. (LIMÓN, 1992, p. 35) Dessa forma o corrido heróico torna-se um elemento que reforça o patriarcalismo, dando voz aos homens e silenciando as mulheres.

Entretanto, no que diz respeito ao gênero corrido como um todo – aqui incluindo produções de mexicanos e de chicanos – não se pode deixar de perceber a presença de mulheres. Ao longo de minha pesquisa pude perceber algumas imagens de mulheres recorrentes tanto no corrido como no cordel – no caso do corrido, algumas já apontadas por pesquisadoras como María Herrera-Sobek e Anna Maria Fernandez Poncela.

 
Lampião e Mª Bonita com cangaceiros                Soldados e soldaderas da Revolução Mexicana
É digno de nota a semelhança entre a cangaceira e as soldaderas.

Várias mulheres subverteram os valores de gênero vigentes em sua sociedade, atuando em esferas tradicionalmente consideradas masculinas ao longo da história. Na Revolução Mexicana houve uma grande ruptura com os valores patriarcais, quando as mulheres passaram a fazer parte das tropas masculinas. Elas eram chamadas soldaderas e desempenharam um papel muito importante na revolução. Muitos descreveram-nas como simples acompanhantes dos homens, responsáveis por certas tarefas consideradas femininas, como cozinhar para as tropas durante as batalhas. Entretanto, na verdade elas tiveram participação muito mais ativa na revolução. Eram responsáveis pela logística militar: saiam à procura de suprimentos, organizavam os acampamentos, cozinhavam, lavavam e cuidavam dos doentes – tarefas sem as quais ninguém sobreviveria em uma guerra. Além disso, muitas vezes elas serviam nos batalhões, ao lado dos homens. Essas mulheres não tinham qualquer regalia; pelo contrário, ao passo que os homens se locomoviam montados, as soldaderas andavam a pé, carregando todo o suprimento de comida, munição, panelas, armas de fogo e, às vezes, até mesmo filhos. (MEYER & SHERMAN apud LIMÓN, 1992, p. 38)

O papel desempenhado pelas mulheres na revolução e, portanto, sua representatividade histórica e social para o mexicano, fez com elas fossem imortalizadas através de diversas formas artísticas: em filmes (por exemplo, La Guerrillera de Villa – 1984, La Generala – 1984, Juana Gallo – 1985), revistas em quadrinho (como a La Coronela da série Leyendas de Pancho Villa), pinturas (de Diego Rivera e Clemente Orozco), contos, romances (como Los de Abajo, de Mariano Azuela – 1915, La Negra Angustias, de Francisco Rojas Gonzáles – 1948, Hasta no verte Jesús mío, de Elena Poniatowska – 1969) e, é claro, em corridos. (SOBEK, 1993, p. 91; 115) Entretanto, nem sempre as soldaderas são descritas como participantes ativas da revolução nos corridos. A seguir apontarei algumas imagens construídas e perpetuadas através dessas canções bastante conhecidas pelos mexicanos e chicanos.

São poucos os corridos que mostram mulheres guerreiras, com participação ativa na revolução. Maria Herrera-Sobek, em seu estudo sobre a construção de arquétipos femininos no corrido, aponta apenas quatro corridos da revolução que retratam mulheres nessa posição. São eles: Corrido de las hazañas Del General Lojero y La toma de Torreón por el ejercito Liberador e outras versões sobre o mesmo episódio, De Agripina, Corrido de la toma de Papantla e El coyote.

O Corrido de las hazañas Del General Lojero y La toma de Torreón por el ejercito Liberador nos conta o confronto armado entre as tropas do general Lojero – defendendo Porfíro Diaz – e as tropas Maderistas, na cidade de Torreón, em 13 de maio de 1911. Nessa ocasião os Maderistas foram vitoriosos e Petra Herrera é citada como uma das responsáveis pela vitória, sendo exaltada como um verdadeiro herói de corrido. Vejamos os versos a seguir:

La valiente Petra Herrera
en el fragor del combate
aunque cayó prisionera
ni se dobla ni se abate.

(em SOBEK, 1993, p. 93 – grifos da autora do artigo)

(a valente Petra Herrera/ no calor do combate/ mesmo sendo presa/ não se dobra e nem se abate)

Petra é uma das únicas soldaderas a ter seu nome e sobrenome exaltados no corrido, como era comum acontecer com os heróis masculinos. Ela tem sua posição de liderança nos batalhões reconhecida, sendo descrita com as características tradicionalmente conferidas aos homens, como valente, forte, que não se entrega, habilidosa com as armas.

No corrido De Agripina, a soldadera Agripina é descrita nos mesmos moldes que Petra Herrera. Esse corrido é do final de 1920 e descreve as lutas travadas entre os agraristas, que clamavam por seus direitos à terra, e os cristãos que defendiam os direitos da igreja católica. Nesse corrido Agripina é a líder da tropa que vence o combate. (SOBEK, 1993, p. 95) Os outros dois corridos citados pela pesquisadora retratam mulheres na guerra, mas de forma diferente das outras duas até agora mencionadas. No corrido intitulado Corrido de la toma de Papantla, a soldadera Chabela é exaltada por sua promoção no exército, porém tem sua identidade atrelada a seu marido – que, curiosamente, não merece nenhuma menção honrosa sobre seus feitos na batalha:

¡Ay! Chabela la mujer
de Juan Tapia se ha ganado
el cariño de su pueblo
y en el ejercito un grado.

(em SOBEK, 1993, p. 97)

(Ah! Chabela a mulher/ de Juan Tapia ganhou/ o carinho de seu povo/ e no exército uma promoção)

Dois aspectos desse corrido merecem ser salientados: o primeiro é que, ironicamente, a soldadera – que é a personagem a ser destacada – é descrita como a mulher de Juan Tapia, o que já a coloca em uma posição inferiorizada; o segundo é que, enquanto ela parece não ter sobrenome, seu marido é citado com nome completo, o que confere a ele um grau maior de representatividade na sociedade.

No corrido El Coyote, observa-se uma situação parecida. Esse corrido exalta vários líderes de tropas Zapatistas preparando um ataque. Ao longo da narrativa esses líderes são nomeados: Felipe Armenta, Custódio Hernandez, Epigmenio García. Mas quando é a vez da mulher, que, no caso, tinha a patente de coronel, nem seu primeiro nome aparece. Ela é chamada de La Güera – a loira – em referência a seus atributos físicos.

O corrido mais conhecido dedicado a uma mulher da época da revolução é, sem dúvida, La Adelita. Existem várias versões desse corrido, e devido a sua vasta popularidade o nome Adelita passou a ser usado como sinônimo de soldadera. O tema desse corrido foge dos temas tradicionalmente relativos à guerra e fala de um relacionamento amoroso durante os tempos de batalha. Nesse corrido a mulher é descrita como o objeto de adoração de um soldado da revolução e não por seus feitos. Na verdade, na versão aqui apresentada, sequer fica claro se Adelita é uma soldadera; o que acontece em outras versões, quando ela é descrita como parte do grupo. Vejamos a apresentação da personagem:

Adelita se llama la joven
que yo quiero y no puedo olvidar,
en el mundo yo tengo una rosa
y con el tiempo le voy a cortar.

Si Adelita quisiera ser mi esposa,
si Adelita fuera mi mujer,
le compraría un vestido de seda
para llevarla conmigo al cuartel.

(em SOBEK, 1993, p. 104; PONCELA, 2002, p. 96)

(Adelita se chama a jovem/ que eu quero e não posso esquecer/ no mundo tenho uma rosa/ e com tempo vou corta-la/ se Adelia quisesse ser minha esposa/ se Adelita fosse minha mulher/ lhe compraria um vestido de seda/ para levá-la comigo ao quartel)

Esse corrido é uma típica canção de amor. Nos primeiros versos temos a apresentação da figura principal do corrido – Adelita – que em nenhum momento possui voz própria. Nos versos seguintes temos a idealização da mulher amada através das juras de amor feitas pelo soldado; e, nos últimos versos, sua despedida ao partir para a guerra. A figura de Adelita é controversa, pois não se sabe muito sobre ela. Não se pode afirmar se Adelita realmente existiu: alguns afirmam ter sido ela uma soldadera – se Villista ou Carrancista não se sabe; outros afirmam que Adelita era uma enfermeira e atribuem a autoria do corrido ao sargento Antonio Del Rio, que teria se apaixonado por ela depois de ter ficado sob seus cuidados. (SOBEK, 1993, p. 108; PONCELA, 2002, p. 98) O que é verdadeiro é e que Adelita ficou imortalizada no cancioneiro popular e se tornou lenda, assim como todos os grandes heróis de corrido.

A ruptura no sistema patriarcal que ocorreu na sociedade mexicana em conseqüência do surgimento da figura da soldadera durante a revolução encontra correspondência no Brasil, com o ingresso das mulheres no cangaço. Paradoxalmente, esses fenômenos que valorizavam e se valiam das características atribuídas aos homens – valentia, força, violência – contribuíram para que a mulher conseguisse alcançar, ao menos, a mesma visibilidade dos homens.

Lampião, até mesmo nesse aspecto, foi ousado: foi o primeiro cangaceiro a levar sua companheira, Maria Bonita, para a vida de cangaceiro. Com o aval do Rei do Cangaço, outros fizeram o mesmo, por exemplo, Corisco – um dos braços direito de Lampião – teve a companhia de Dadá, considerada a mulher mais valente do cangaço.

A cangaceira mais retratada em cordel é, sem dúvida alguma, Maria Bonita. Isso ocorre provavelmente pelo fato de Lampião e, consequentemente, sua companheira terem se tornado lenda, fazendo com que sua história continuasse viva na memória popular e fosse registrada em poesia. Maria Gomes de Oliveira era casada, mas durante um período de separação, conheceu Lampião. Ela tinha dezoito anos na época, e em vários poemas sua beleza é exaltada; daí o apelido Maria Bonita, dado a ela pelo próprio Lampião.

No poema ABC de Maria Bonita, Lampião e seus cangaceiros, de Rodolfo Coelho Cavalcante, Maria Bonita é descrita como um verdadeiro soldado. A ela são atribuídas as características de um homem cangaceiro: valentia, crueldade, habilidade com armas, capacidade de matar como qualquer outro membro do grupo. Vejamos os primeiros versos do poema:

_______ A ________

A amante de Lampião
Foi mulher de um sapateiro,
Esta vendo Virgulino –
O terrível cangaceiro
Resolveu mudar de vida
Para tornar-se homicida
No nordeste brasileiro.

_______ B ________

Bandido nas unhas dela
Tinha que andar direito
E na hora da brigada
Lutava de todo jeito.
Cada tiro era uma queda
“ Macaco tu te arreda
Senão atiro no peito

(CAVALCANTE, 1976, folheto – grifos meus)


O mesmo poema ressalta que Maria Bonita também realizava as tarefas consideradas mais femininas, como cozinhar e preparar festas; e que também atuava como vigilante do grupo, permanecendo muitas vezes acordada velando o sono do companheiro e de seu grupo. Esse poema mostra uma Maria Bonita realmente atuante na sociedade em que vivia: teve coragem de sair de um casamento que não a fazia feliz para ficar com Lampião e, ao lado dele, tornou-se uma guerreira, tanto nas lutas travadas pelo grupo como na posição que escolheu ter na sociedade.

Entretanto, não é sempre dessa maneira que Maria Bonita é descrita nos versos populares. Na maioria das vezes ela é vista como a companheira passiva de Lampião, a dona de seu amor e, portanto, a responsável por conferir a ele um pouco de humanidade. O poema Maria Bonita – A eleita do Rei, de Gonçalo da Silva é um exemplo desse tipo de abordagem. O autor nos narra o encontro de Maria Bonita e Lampião e o amor dos dois que só teve fim com a morte:

Quando Maria deixou
seu marido sapateiro
para seguir Lampião,
o temido bandoleiro,
trocou um vão sentimento
por um amor verdadeiro.

Um sentimento sincero
do mais puro amor nascido,
venceu muitos obstáculos
sem um arranhão sofrido,
até o fim preservado,
até a morte mantido.

(SILVA, 2000, folheto)

Nesse cordel não há nenhuma menção à participação de Maria Bonita nas lutas travadas pelo bando. Temos aqui uma história de amor em meio a um fenômeno tão identificado com a violência, como foi o cangaço. E é essa a principal imagem de Maria Bonita na literatura popular. Nos inúmeros poemas sobre Lampião ou sobre o cangaço, Maria Bonita sempre aparece ao lado de Lampião, como sua companheira na vida do cangaço e seu verdadeiro amor. Um traço que é freqüentemente realçado é sua beleza, talvez uma forma que os poetas encontraram para explicar o apelido – dado pelo próprio Lampião – que se tornou seu sobrenome.

É interessante perceber que tanto a Revolução Mexicana, no México, como o cangaço, no nordeste brasileiro – sendo movimentos marcadamente masculinos, por valorizarem características tradicionalmente atribuídas aos homens como força, coragem, violência – criaram a possibilidade de as mulheres atingirem um status igual ao do homem na sociedade. Parece que em épocas de guerra ou conflitos armados há uma ruptura no sistema social que faz com que haja um desequilíbrio nos papéis tão fixamente construídos para o homem e para a mulher na sociedade, criando a possibilidade de inclusão e igualdade para ambos.

No entanto, como foi observado anteriormente, a maior parte da produção popular em ambos os casos preferiu retratar a mulher em seu modelo estereotipado: a mulher amada, idealizada, companheira fiel até a morte, que realiza tarefas a elas tradicionalmente atribuídas, como cozinhar, cuidar dos filhos e dos doentes. Essas construções são mensagens do discurso social hegemônico que refletem a situação real vivida pelas mulheres na sociedade, o que confirma a força opressora do patriarcado e sua influência nas produções poéticas aqui analisadas. Por outro lado, o simples fato de as mulheres serem retratadas nessas produções marcadamente masculinas já representa uma certa subversão de valores. Se, no papel socialmente construído, a mulher pertence à esfera privada, ou seja, ao lar, e suas atividades sejam limitadas a essa ambiente – mãe, dona de casa, esposa – tanto nos corridos da Revolução Mexicana como nos cordéis do cangaço, a mulher deixou o privado e passou a pertencer à esfera pública, passando a ser reconhecida como companheira de luta, criando, assim, uma outra possibilidade de posicionamento da mulher na sociedade.

Referências Bibliográficas

CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. ABC de Maria Bonita, Lampião e seus cangaceiros. Salvador: Casa do Trovador, 1976.

HERRERA-SOBEK, María. The Mexican Corrido. A Feminist Analysis. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 1993.

LIMÓN, José Eduardo. Mexican Ballads, Chicano Poems: History and Influences in Mexican-American Social Poetry. Califórnia: University of Califórnia Press, 1992.

PONCELA, Anna María. Pero vas a estar mui triste y así te vas a quedar: Construcciones de género en la canción popular mexicana. Córdoba: Conaculta INAH, 2002.

SILVA, Gonçalo Ferreira da. Maria Bonita – A Eleita do Rei. Rio de Janeiro: ABLC, 2000.

Notas

1- O presente artigo foi apresentado no encontro regional promovid