Agradecimento de Duca Rachid à Academia Brasileira de Literatura de Cordel pela Medalha Rogaciano Leite


Depois de viajar pelas festas e feiras do Nordeste, o Cordel enfim chegou à grande feira televisiva, ao cordão eletrônico. A cultura popular se uniu à cultura de massa. E hoje o nosso Cordel, o Cordel Encantado está aqui, de volta à sua verdadeira casa. Depois de tanto me explicar, aqui não preciso dizer por que a música de Gilberto Gil antecipa as mazelas e o destino de Jesuíno e Açucena, ele o rei, ela flor do sertão.

Digo isso, porque, desde sempre, a narração popular tem sobre o meu imaginário, um grande poder. Mesmo eu, uma paulista que vive longe dos repentistas e dos cantadores. E que verdadeira novela estes poetas do povo escrevem todos os dias!: O filho que matou a mãe por um bago de jaca, o pavão misterioso, o homem que falou com o diabo em Juazeiro. O marido que trocou a mulher por uma tevê a cores, o Sindicato dos cornos e O caçador de marajás. Eu não queria falar mas tem até “O mal que causa a novela…”.

Mas o poder do cordel não tem território! Encanta os da cidade grande que, como eu, caí de amores pela literatura de Graciliano, Jorge Amado, Dias Gomes e Suassuna, cujo “Auto da Compadecida” é inspirado em um cordel.

Também me encantei pelos versos de Patativa de Assaré, João Cabral, Jorge de Lima, Ferreira Gullar (que não é nordestino, é maranhense, mas também escreveu cordel). E como filha legítima dos anos 1960, Gil, Caetano, Tom Zé e a trupe de Tropicalistas me deram liberdade de pensamento para olhar o Brasil e dissolver as fronteiras do popular e do erudito, do sagrado e do profano… Foram eles que me apresentaram, ao cordel e também a Gonzaga, Humberto Teixeira, Jackson do Pandeiro.

Nesta nossa verdadeira “estética do arrastão”, no dizer de Tom Zé, o folheto “Labareda, o capador de covardes” de Gonçalo Ferreira da Silva; o espelhinho e o pente de plástico, arranjados na banca do camelô; e a biografia de Lampião, o Rei do Cangaço tirada da estante da biblioteca, me valem como tesouros de igual valor.

É por acreditar nisso, que vou me valer da epígrafe de Jorge Amado à Tereza Batista Cansada de Guerra para encerrar esse agradecimento: “Peste, fome, guerra, morte e amor, a vida de Teresa é uma história de cordel”.

“Fome, guerra, segredos, amor e destino, a nossa novela é o Cordel nordestino.”

Fontes: entrevista Gil para o site tropicália; letra do Gil; livro Retrato do Brasil do em Cordel; site da Academia Brasileira de Literatura de Cordel; texto sobre Jorge Amado e Literatura de Cordel, da antropóloga Ilana Goldstein